Os Estados Unidos autorizaram uma nova etapa de avaliação de uma arma de energia direcionada que poderá ser considerada para operações na fronteira com o México. Desenvolvido para provocar uma sensação intensa de calor na pele e afastar pessoas de determinada área, o equipamento será disponibilizado ao Departamento de Segurança Interna americano por um período de sete meses.
A decisão foi autorizada pelo Pentágono por meio de um memorando assinado pelo secretário de Guerra, Pete Hegseth, no mês passado, segundo informações divulgadas pela CNN americana. O documento permite que o Departamento de Segurança Interna desenvolva procedimentos e avalie possíveis aplicações do sistema em atividades de segurança fronteiriça.
A iniciativa chama atenção porque envolve uma tecnologia originalmente desenvolvida para aplicações militares e que, agora, poderá ser examinada para uma finalidade diferente: o controle de movimentações de pessoas em uma das fronteiras mais sensíveis do mundo.
Até o momento, porém, não há confirmação de que a arma tenha sido empregada contra migrantes. Também não foram divulgados detalhes definitivos sobre o local dos testes ou sobre as condições de uma eventual utilização operacional.
Como funciona a arma que provoca uma sensação de queimadura?
O equipamento é conhecido como Active Denial System (ADS), expressão que pode ser traduzida como Sistema de Negação Ativa, fabricada pela empreiteira estratégica de defesa americana Raytheon, em parceria com instituições militares e outros fornecedores. O desenvolvimento foi realizado para a Força Aérea dos EUA e para a Diretoria Conjunta de Armas Não Letais do Departamento de Guerra.
Diferentemente de um fuzil ou de uma arma convencional, ele utiliza energia eletromagnética direcionada para produzir um efeito físico sobre as pessoas atingidas.
Segundo informações das Forças Armadas americanas citadas pela CNN, o sistema pode alcançar alvos a pouco mais de 800 metros de distância.
Seu funcionamento se baseia na emissão de ondas de rádio de alta frequência, aproximadamente 95 GHz, que são absorvidas pelas camadas superficiais da pele, provocando um aquecimento rápido e uma sensação de queimação extremamente desconfortável.
A pessoa atingida experimenta uma sensação de calor extremamente intensa, comparada por autoridades militares à aproximação de um forno muito quente.
A reação pode levar o indivíduo a abandonar rapidamente a área atingida pelo feixe. É justamente esse efeito que torna o sistema potencialmente útil para operações de dispersão de multidões ou para impedir a permanência de pessoas em determinados locais.
De acordo com as informações divulgadas, a sensação provocada pelo equipamento pode incluir formigamento e desconforto que persistem por aproximadamente 10 a 15 minutos.
Embora seja classificado como uma arma não letal, isso não significa que seu emprego seja isento de riscos. O resultado depende das circunstâncias de utilização, das condições das pessoas expostas e da possibilidade de ocorrerem acidentes durante uma tentativa de fuga.
O teste prático na fronteira!
A autorização ocorre em um contexto no qual o governo de Donald Trump mantém o controle da imigração entre suas prioridades de segurança nacional.
A fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma área de intensa atividade de fiscalização, com agentes responsáveis por impedir travessias irregulares, combater redes de contrabando e identificar possíveis atividades criminosas.
Nesse cenário, tecnologias capazes de afastar grupos de pessoas sem disparar munição convencional podem despertar o interesse das autoridades. O sistema ADS já havia sido considerado anteriormente como uma alternativa para dispersar multidões e dificultar determinadas travessias.
Segundo a CNN, integrantes atuais e antigos da estrutura de fiscalização de fronteiras discutiram, em diferentes ocasiões, a possibilidade de utilizar a tecnologia em áreas com grande concentração de passagens irregulares.
Entretanto, a autorização atual não estabelece publicamente uma operação específica. O pedido do Departamento de Segurança Interna também não detalha onde o equipamento será testado nem em quais circunstâncias poderá ser empregado no futuro.
Portanto, a medida representa uma autorização para avaliação e desenvolvimento de procedimentos, e não uma confirmação de que a arma será utilizada de maneira rotineira contra pessoas que tentem entrar nos Estados Unidos.
Uma tecnologia que já esteve nos planos militares
O sistema não é inteiramente novo. As Forças Armadas americanas chegaram a utilizar brevemente a tecnologia no Afeganistão há quase duas décadas, mas decidiram não incorporá-la às operações de combate ativo.
Também houve discussões anteriores sobre seu possível emprego para controlar multidões em instalações americanas no exterior que abrigavam detidos suspeitos de terrorismo.
Na fronteira com o México, a possibilidade de utilização igualmente já havia sido examinada. Em 2018, autoridades americanas chegaram a considerar o uso do equipamento contra migrantes, mas a então secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, rejeitou a proposta.
O histórico demonstra que a discussão sobre o emprego dessa arma não começou agora. A diferença é que o novo memorando abre um período formal de empréstimo do equipamento para que o Departamento de Segurança Interna desenvolva suas próprias avaliações e procedimentos.
O documento estabelece que o sistema não deverá ser operado por integrantes do Departamento de Guerra. O Departamento de Segurança Interna ficará responsável pelo emprego do equipamento e pelo desenvolvimento de técnicas e procedimentos de utilização.
Ao final dos sete meses, a pasta poderá solicitar a continuidade do empréstimo, caso considere que a tecnologia atende às suas necessidades operacionais.
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