A União Europeia apresentou nesta terça-feira (3) novas diretrizes de preparação para emergências e reforçou uma recomendação que chama a atenção pelo seu alcance: os cidadãos devem estar preparados para enfrentar pelo menos 72 horas de uma situação de crise com recursos próprios, enquanto os serviços públicos organizam uma resposta.
A iniciativa foi apresentada pela comissária europeia para Igualdade, Preparação e Gestão de Crises, Hadja Lahbib, durante o Fórum Europeu de Proteção Civil, realizado em Bruxelas. O objetivo é preparar a população para enfrentar situações que podem comprometer o funcionamento normal das cidades, desde desastres naturais até ataques cibernéticos, sabotagens de infraestrutura e conflitos geopolíticos.
A recomendação representa uma mudança importante na maneira como o bloco europeu encara a segurança civil. Em vez de depender exclusivamente da atuação imediata dos governos e dos serviços de emergência, a Comissão Europeia quer que famílias e comunidades também tenham condições de reagir nos primeiros momentos de uma ocorrência grave.
Três dias de autonomia: o que os europeus devem preparar?
Entre as principais recomendações está a organização de um kit de emergência, conhecido como grab bag, que permita às pessoas atender às necessidades básicas durante os primeiros três dias de uma crise.
A orientação inclui manter alimentos não perecíveis, água potável, medicamentos de uso necessário, produtos de higiene, dinheiro em espécie e outros itens essenciais. A reportagem do Insider Paper destaca a recomendação de aproximadamente seis litros de água potável por pessoa para esse período.
A preocupação é que determinadas emergências possam interromper temporariamente serviços dos quais a população depende diariamente, como abastecimento de água, energia elétrica, telecomunicações, transporte e distribuição de alimentos.
Em uma situação de grande impacto, equipes de resgate e autoridades podem precisar de tempo para chegar às regiões afetadas. Ter suprimentos básicos em casa, portanto, pode fazer diferença enquanto a assistência pública é mobilizada.
A proposta não significa que os cidadãos devam abandonar suas residências ou se preparar para viver permanentemente sem assistência do Estado. A intenção é garantir uma margem inicial de autonomia diante de interrupções inesperadas.
A preocupação vai além de uma guerra
Embora a preparação para possíveis conflitos militares esteja entre as preocupações europeias, as novas diretrizes não foram elaboradas exclusivamente para um cenário de guerra.
A Comissão Europeia considera que diferentes ameaças podem provocar consequências semelhantes para a população. Um ataque cibernético contra serviços essenciais, por exemplo, pode comprometer sistemas de pagamento, comunicações e operações de infraestrutura. Da mesma forma, uma grande inundação, incêndio florestal, apagão ou emergência sanitária pode deixar milhares de pessoas temporariamente sem acesso a serviços básicos.
O documento também considera a possibilidade de sabotagens e ameaças híbridas, situações em que ações digitais, operações clandestinas e pressões geopolíticas podem ser utilizadas para desestabilizar países.
Essa visão está relacionada à Estratégia da União Europeia para uma União de Preparação, apresentada em março de 2025. O plano estabelece uma abordagem mais ampla de segurança, envolvendo governos, empresas, forças de proteção civil e cidadãos.
A intenção é evitar que uma crise inesperada encontre os países despreparados, especialmente quando diferentes setores podem ser afetados simultaneamente.
Crianças também deverão receber orientações de preparação
Outro ponto importante das novas diretrizes é a inclusão da preparação para emergências no ambiente educacional.
A Comissão Europeia recomenda que os países-membros incorporem conhecimentos sobre prevenção e resposta a crises nos currículos da educação infantil e do ensino fundamental.
A proposta é ensinar crianças a reconhecer situações de perigo, compreender orientações das autoridades e saber como agir diante de emergências.
A iniciativa também prevê treinamento de educadores, com atividades adequadas à idade dos alunos. Segundo a Comissão, o objetivo é desenvolver habilidades práticas sem provocar medo ou ansiedade desnecessária.
As orientações também destacam a necessidade de incluir pessoas com deficiência nos planos de emergência, garantindo que suas necessidades sejam consideradas desde o planejamento até a execução das operações de resposta.
União Europeia quer fortalecer a comunicação e a capacidade de resposta
Além da preparação individual, Bruxelas pretende melhorar a maneira como os governos comunicam riscos à população.
As autoridades deverão trabalhar para garantir que os cidadãos recebam informações confiáveis, acessíveis e em tempo hábil antes, durante e depois de uma emergência.
Isso é particularmente importante em situações nas quais informações falsas, falhas de comunicação ou interrupções de redes digitais podem dificultar a resposta das autoridades.
A Comissão também está trabalhando para fortalecer a continuidade operacional das estruturas nacionais de proteção civil, de modo que os órgãos responsáveis pela gestão de crises consigam continuar funcionando mesmo quando enfrentarem situações de grande pressão.
Outra iniciativa anunciada é a criação de um Dia Europeu da Preparação, previsto para 23 de outubro, com primeira edição planejada para 2027.
A influência da guerra na Ucrânia
A publicação dessas diretrizes acontece em um momento de crescente preocupação com a segurança europeia. A guerra na Ucrânia, as tensões com a Rússia, os riscos de ataques cibernéticos e a possibilidade de sabotagens contra infraestruturas estratégicas contribuíram para que a preparação civil ganhasse maior importância na agenda europeia.
Entretanto, é importante fazer uma distinção: a recomendação de autonomia por 72 horas não representa um anúncio de guerra iminente, tampouco uma determinação de que os cidadãos abandonem suas casas ou acumulem grandes estoques de alimentos.
As orientações divulgadas em 3 de novembro são recomendações não vinculantes, destinadas a orientar os países participantes na elaboração e no fortalecimento de suas próprias políticas de preparação.
O que fica evidente é uma mudança de mentalidade na Europa. A segurança deixou de ser tratada apenas como uma responsabilidade das forças armadas, dos governos e dos serviços de emergência. A população também passou a ser considerada parte fundamental da capacidade de resistência de uma sociedade diante de grandes crises.
Em um continente que enfrenta uma guerra em seu próprio entorno e convive com ameaças cada vez mais complexas, a mensagem de Bruxelas é clara: em uma emergência de grandes proporções, os primeiros dias podem ser decisivos, e estar preparado pode fazer a diferença entre o caos e uma resposta organizada.
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