Houthis avançam sobre Bab el-Mandeb e colocam rota estratégica sob ameaça

Avanço do grupo Houthis em direção a ilha de Perim. © Área Militar/Reprodução
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A guerra no Iêmen ganhou uma nova dimensão estratégica nos últimos dias. Os rebeldes Houthis, grupo apoiado pelo Irã, avançaram pela costa do Mar Vermelho, tomaram a cidade portuária de Mocha e, segundo informações divulgadas nesta sexta-feira (11), também assumiram o controle da estratégica ilha de Perim, localizada no estreito de Bab el-Mandeb.

A movimentação aproxima os Houthis de uma posição capaz de ameaçar diretamente a navegação em um dos principais corredores marítimos do planeta.

O Bab el-Mandeb é a passagem que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, consequentemente, ao oceano Índico. Na prática, navios que seguem entre a Ásia e a Europa utilizam essa rota para chegar ao Canal de Suez.

Por isso, o avanço Houthi não representa apenas uma disputa territorial dentro do Iêmen. Ele pode ter consequências sobre petróleo, comércio internacional, fretes e preços de produtos em diversos países.

Quem são os Houthis?

Os Houthis, oficialmente chamados de Ansar Allah, são um movimento político, religioso e militar originário do norte do Iêmen.

O grupo surgiu entre a comunidade zaidita, uma corrente do islamismo xiita tradicionalmente presente no norte do país. A organização ganhou força na década de 1990 e passou a combater o governo iemenita.

A grande virada aconteceu em 2014, quando os Houthis conquistaram Sanaa, a capital do Iêmen. O avanço provocou uma guerra civil e levou a Arábia Saudita a intervir militarmente em 2015, apoiando o governo reconhecido internacionalmente.

Desde então, o Iêmen permanece dividido.

Os Houthis controlam grande parte do norte e oeste do país, incluindo áreas densamente povoadas, enquanto o governo internacionalmente reconhecido e seus aliados mantêm posições principalmente no sul e no leste.

Quem financia os Houthis?

O principal apoio externo aos Houthis vem do Irã. Teerã fornece, segundo autoridades e fontes de inteligência citadas por veículos internacionais, armamentos, tecnologia, treinamento e assistência militar.

Entre os equipamentos associados ao arsenal Houthi estão drones, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro.

O apoio iraniano não significa, necessariamente, que cada operação Houthi seja ordenada diretamente por Teerã. O grupo possuem estrutura própria, liderança própria e interesses ligados à política interna do Iêmen.

Mas a relação com o Irã transformou o grupo em uma importante peça da disputa regional entre Irã, Arábia Saudita, Israel e Estados Unidos.

Além do apoio externo, os Houthis também obtêm recursos dentro das áreas que controlam, por meio de arrecadação, cobrança de impostos, controle econômico de territórios e redes comerciais e de contrabando.

A importância da cidade de Mocha

A cidade fica na costa do Mar Vermelho, relativamente próximo ao Bab el-Mandeb. A captura permite aos Houthis ampliar sua presença militar em direção ao estreito.

Segundo fontes citadas pela Reuters, o grupo também avançou contra as ilhas Hanish e buscava posições em Dhubab e Perim, pontos considerados fundamentais para exercer influência sobre a passagem marítima.

A situação evoluiu ainda mais com a notícia da tomada de Perim, uma pequena ilha situada praticamente no centro da entrada do Bab el-Mandeb.

Isso é importante porque controlar posições terrestres próximas ao estreito oferece aos militantes melhores condições para observar, ameaçar ou atacar embarcações que atravessem a região.

Isso não significa que o grupo tenha literalmente “fechado” o estreito.

Mas significa que os Houthis estão muito mais próximos de possuir capacidade para transformar o Bab el-Mandeb em uma área de alto risco para a navegação internacional.

O que significa “fechar” o Bab el-Mandeb?

“Fechar o estreito” não necessariamente significa colocar uma barreira física no mar.

Um grupo armado pode provocar o fechamento de uma rota simplesmente tornando a passagem perigosa demais para navios comerciais.

Se empresas de navegação considerarem que seus navios podem ser atingidos por mísseis, drones ou minas, elas podem decidir suspender as viagens ou utilizar rotas alternativas.

Foi justamente esse tipo de ameaça que já provocou alterações significativas no tráfego do Mar Vermelho nos últimos anos.

O Bab el-Mandeb funciona como uma espécie de porta de entrada e saída do Mar Vermelho. Depois dele está o Canal de Suez, que conecta a região ao Mediterrâneo.

Por isso, uma crise nessa passagem pode atingir diretamente o comércio entre Ásia, Oriente Médio e Europa.

Por que a Arábia Saudita apoia o governo do Iêmen?

Para a Arábia Saudita, a questão é muito maior do que a guerra civil iemenita.

O Iêmen está localizado imediatamente ao sul do território saudita. Um governo Houthi forte e aliado do Irã representa, portanto, uma ameaça estratégica direta para Riad.

A Arábia Saudita já enfrentou ataques Houthis contra seu território utilizando mísseis e drones, inclusive contra instalações relacionadas à indústria de energia.

Por isso, Riad apoia o governo internacionalmente reconhecido do Iêmen e tenta impedir que os Houthis controlem todo o país ou dominem posições estratégicas próximas às fronteiras sauditas e ao Mar Vermelho.

Mas existe um problema. A Arábia Saudita já passou anos tentando derrotar militarmente os Houthis e descobriu que uma vitória definitiva é extremamente difícil.

Depois de anos de guerra, uma trégua estabelecida em 2022 reduziu significativamente os combates, mas nunca produziu um acordo de paz definitivo.

Agora, com a nova ofensiva Houthi, Riad enfrenta novamente uma escolha difícil: intervir militarmente em maior escala ou tentar evitar uma nova guerra prolongada no Iêmen.

A importância dos EUA

Os Estados Unidos são um dos principais parceiros militares e estratégicos da Arábia Saudita. A relação envolve armamentos, treinamento, inteligência, defesa aérea e cooperação militar.

Neste momento, porém, a Arábia Saudita está pedindo maior apoio americano, mas Washington não necessariamente quer entrar diretamente em uma nova guerra no Iêmen.

Mais de 100 militares e conselheiros americanos estão em território saudita, fornecendo apoio de inteligência e direcionamento de alvos dentro de uma estrutura de cooperação militar com Riad.

Além disso, segundo fontes citadas pela Reuters, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman pediu ao presidente Donald Trump uma participação militar americana mais direta contra os Houthis.

Trump, porém, teria recusado o envio direto de forças americanas para atacar os Houthis, embora tenha concordado com apoio de inteligência e direcionamento de alvos.

EUA e os ataques contra os Houthis

Porque qualquer ataque americano pode ampliar ainda mais o conflito regional.

Os Houthis são aliados do Irã. Portanto, uma campanha militar americana contra o grupo poderia ser interpretada por Teerã como uma nova frente direta de confronto.

Além disso, os Estados Unidos precisam proteger simultaneamente seus interesses no Golfo Pérsico, Mar Vermelho, Arábia Saudita e outras áreas estratégicas do Oriente Médio.

A estratégia do Irã

Para o Irã, os Houthis representam uma maneira de aumentar sua capacidade de pressionar adversários sem necessariamente utilizar diretamente as Forças Armadas iranianas.

O país possui aliados e grupos armados em diferentes partes do Oriente Médio. Os Houthis acrescentam uma dimensão marítima a essa rede.

Ao possuir influência sobre o Iêmen e capacidade de ameaçar o Bab el-Mandeb, o Irã pode aumentar a pressão sobre Arábia Saudita, Estados Unidos e o comércio marítimo internacional.

O que pode acontecer agora?

A grande preocupação é que a captura de Mocha e o avanço sobre Perim transformem o Bab el-Mandeb em uma nova frente da guerra regional.

A primeira consequência pode ser militar, a Arábia Saudita pode aumentar os ataques contra posições Houthis. A segunda é econômica, com empresas de navegação podem evitar a região, aumentando o tempo e o custo do transporte.

A terceira, e não menos importante, é energética. Qualquer ameaça simultânea ao Bab el-Mandeb e ao Estreito de Hormuz pode aumentar a pressão sobre o mercado internacional de petróleo.

E existe ainda um quarto risco, o retorno de uma guerra civil em grande escala no Iêmen. A trégua de 2022 havia reduzido drasticamente a intensidade do conflito, mas os combates recentes já provocaram novos deslocamentos de civis e ameaçam destruir o frágil equilíbrio construído nos últimos anos.

E é justamente essa porta que os Houthis estão tentando colocar sob seu controle.


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