O impacto dos Data Centers nas cidades: barulho constante, calor e consumo elétrico

Conglomerado de Data Centers nos EUA. © Área Militar/Reprodução
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Por trás de serviços como inteligência artificial, armazenamento em nuvem, streaming e aplicativos existe uma infraestrutura que raramente é vista pelo usuário: os data centers.

São grandes complexos de servidores que funcionam praticamente sem interrupção e precisam de enormes quantidades de eletricidade, sistemas de refrigeração e equipamentos de segurança para permanecer operando 24 horas por dia.

O crescimento acelerado da inteligência artificial transformou essas instalações em uma das novas fronteiras da infraestrutura tecnológica mundial.

Mas a expansão também está produzindo um efeito que começa a aparecer diretamente nas comunidades próximas: quanto maior o data center, maior tende a ser sua demanda por energia, refrigeração e equipamentos industriais e, em determinadas situações, impacto sonoro sobre a vizinhança.

A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que o consumo mundial de eletricidade dos data centers aumentou 17% em 2025. A projeção da agência é que esse consumo mais que dobre até 2030, chegando a aproximadamente 945 TWh por ano. O crescimento é puxado principalmente pela inteligência artificial e pela expansão dos serviços digitais.

O dado mais importante, entretanto, não está apenas no número global. O problema é a concentração. Um data center pode representar uma carga elétrica gigantesca em uma área relativamente pequena.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), esses empreendimentos são grandes cargas elétricas e que sua expansão já influencia o planejamento da transmissão brasileira, além de provocar aumentos de carga em determinadas regiões.

O barulho que nunca dorme

Um dos impactos menos conhecidos está relacionado ao sistema de refrigeração. Servidores produzem calor continuamente e precisam ser resfriados para evitar falhas.

Sistemas industriais de refrigeração de um Data Center nos EUA. © Área Militar/Reprodução

Para isso, data centers utilizam grandes sistemas de ventilação, chillers, bombas, torres de resfriamento e outros equipamentos que podem permanecer em funcionamento durante todo o dia.

O resultado pode ser um ruído contínuo, diferente daquele provocado por uma obra ou por um caminhão que passa ocasionalmente. Em determinadas instalações, o problema é justamente a permanência do som.

Um estudo publicado em 2026 sobre os impactos dos data centers na Virgínia, nos Estados Unidos, descreveu níveis de aproximadamente 40 a 59 decibéis em determinados ambientes próximos a essas instalações, associando o ruído principalmente aos sistemas de refrigeração e geradores. O estudo ressalta, porém, que os níveis variam de acordo com o projeto, distância, equipamentos e condições locais.

Para entender o que isso representa, uma conversa normal costuma ficar em torno de 60 dBA, enquanto uma biblioteca pode estar próxima de 40 dBA, segundo referências do CDC/NIOSH americano.

Portanto, o problema de um data center localizado próximo a residências não precisa necessariamente ser um som extremamente alto para causar incômodo: um ruído relativamente moderado, mas contínuo, pode ser percebido principalmente durante a noite, quando o ambiente fica mais silencioso.

É justamente aí que os decibéis podem enganar. A escala de decibéis é logarítmica, e não linear. Isso significa que uma diferença aparentemente pequena no número indicado pelo medidor pode representar uma diferença relevante na intensidade sonora.

Especialistas realizando manutenção em Data Center da Amazon. © Área Militar/Reprodução

A Organização Mundial da Saúde considera o ruído ambiental um fator de risco para a saúde e relaciona exposições excessivas a problemas como perturbação do sono, efeitos cardiovasculares e redução do bem-estar. Nas suas recomendações para ruído noturno, a OMS utiliza níveis bastante inferiores aos 85 dBA normalmente associados ao risco ocupacional de perda auditiva.

Isso é importante porque ruído de data center e risco de perda auditiva não são necessariamente a mesma questão. Uma instalação pode não produzir níveis capazes de provocar dano auditivo e, ainda assim, gerar incômodo, dificuldade para dormir ou sensação de ruído permanente.

O consumo elétrico equivalente a 100 mil residências

Se o barulho é o impacto que o morador consegue perceber, a eletricidade é provavelmente o maior desafio estrutural.

Data centers modernos podem demandar dezenas ou até centenas de megawatts. E instalações voltadas à inteligência artificial tendem a concentrar equipamentos de computação de alta densidade, aumentando a necessidade de energia e refrigeração.

A IEA calcula que um data center voltado para inteligência artificial pode consumir eletricidade equivalente à demanda de aproximadamente 100 mil residências. As maiores instalações em construção podem chegar a aproximadamente 20 vezes esse nível.

Supercomputadores de Data Centers nos EUA. © Área Militar/Reprodução

Nos Estados Unidos, um estudo atualizado do Lawrence Berkeley National Laboratory estima que os data centers poderão representar cerca de 11,8% do consumo total de eletricidade do país em 2030, embora exista uma faixa de cenários entre 9,5% e 15,3%.

No Brasil, a dimensão ainda é diferente, mas a preocupação já chegou ao planejamento oficial. A EPE acompanha o setor justamente porque grandes data centers podem alterar a demanda local e regional e exigir planejamento de transmissão e geração para que a rede consiga atender essas novas cargas.

Um exemplo recente mostra como essa pressão pode aparecer regionalmente. Na área de concessão da CPFL Energia, a demanda de energia associada a data centers cresceu 35,8% no segundo trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados pela empresa à CNN Brasil.

O impacto é local e muito concentrado

Existe uma característica que diferencia um data center de uma indústria convencional: ele pode ocupar uma área relativamente limitada e, mesmo assim, demandar uma quantidade extraordinária de energia. É por isso que o impacto pode ser muito concentrado.

A IEA destaca que os data centers representam uma parcela relativamente pequena do consumo global de eletricidade, mas seus efeitos locais podem ser muito mais significativos porque essas cargas estão concentradas geograficamente. Nos Estados Unidos, quase metade da capacidade de data centers está concentrada em apenas cinco grandes agrupamentos regionais.


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