Por trás de decisões diplomáticas, operações de segurança e respostas a ameaças internacionais existe uma estrutura de cooperação que atua muito além daquilo que normalmente aparece no noticiário: o Five Eyes, ou “Cinco Olhos”.
Formado por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, o grupo reúne algumas das principais capacidades de inteligência, comunicações e cibersegurança desses países.
Sua origem está na cooperação de inteligência entre americanos e britânicos durante a Segunda Guerra Mundial, que posteriormente foi formalizada pelo acordo UKUSA, em 1946. Canadá, Austrália e Nova Zelândia passaram a integrar essa estrutura nos anos seguintes, consolidando o arranjo conhecido hoje como Five Eyes.
Mas afinal, o que significa dizer que esses cinco países compartilham inteligência?
O Five Eyes não deve ser entendido simplesmente como uma aliança militar semelhante à OTAN. Sua característica central está na cooperação de inteligência, especialmente na chamada SIGINT — Signals Intelligence, ou inteligência de sinais.
Em termos simples, isso envolve a obtenção e análise de informações provenientes de comunicações e sinais eletrônicos. A cooperação também se expandiu para áreas como cibersegurança, terrorismo, crime organizado, ameaças estatais e tecnologias emergentes.
O próprio GCHQ, órgão britânico responsável por inteligência de sinais e segurança cibernética, descreve o acordo UKUSA como uma estrutura para compartilhamento de informações de comunicação, tradução, análise e quebra de códigos.
É daí que surge a ideia de que o Five Eyes funciona como uma espécie de rede ampliada de olhos e ouvidos de inteligência.
Como essa estrutura surgiu?
Durante a Segunda Guerra Mundial, britânicos e americanos aumentaram significativamente a cooperação na área de inteligência de comunicações. O trabalho de criptografia e decodificação realizado durante o conflito ajudou a estabelecer uma relação de confiança que continuaria depois da guerra.
Em 5 de março de 1946, Reino Unido e Estados Unidos formalizaram o acordo que ficou conhecido como UKUSA.
Posteriormente, o Canadá entrou na estrutura, seguido por Austrália e Nova Zelândia. Em meados da década de 1950, estava formada a configuração dos cinco países que conhecemos atualmente, ou seja, o Five Eyes nasceu originalmente de uma necessidade muito específica, compartilhar informações obtidas por inteligência de sinais, mas sua atuação acabou se tornando muito mais ampla.
Cinco países, uma enorme capacidade de inteligência
A importância do Five Eyes está justamente na possibilidade de combinar diferentes capacidades nacionais. Cada país possui seus próprios serviços, instalações, tecnologias, agentes e fontes de informação. Quando informações são compartilhadas, uma agência pode complementar aquilo que outra conseguiu identificar.
Para quem está fora dessa estrutura, é mais fácil imaginar da seguinte maneira: um país pode detectar um sinal, outro pode possuir informações adicionais sobre aquele sinal, um terceiro pode relacioná-lo a uma pessoa ou organização e outro pode contribuir com análise sobre o contexto.
O resultado é uma visão mais ampla de determinada ameaça. Isso não significa que os cinco governos tenham acesso automático a absolutamente todas as informações produzidas pelos demais.
O compartilhamento depende de regras, acordos, classificações e interesses de segurança. Mas a profundidade da cooperação diferencia o Five Eyes de muitas outras parcerias internacionais.
Um relatório do Parlamento britânico descreve o Five Eyes como uma parceria de natureza particularmente importante para a comunidade de inteligência do Reino Unido.
Hoje, ameaças podem envolver:
– redes de computadores;
– comunicações digitais;
– ataques cibernéticos;
– inteligência artificial;
– terrorismo;
– crime organizado transnacional;
– espionagem estatal;
– infraestrutura crítica;
– tráfico internacional;
– ameaças híbridas.
Em 2026, por exemplo, os cinco países continuam aprofundando a cooperação em segurança cibernética. Uma declaração conjunta das agências de cibersegurança do Five Eyes destacou os impactos da inteligência artificial sobre as capacidades ofensivas e defensivas no ambiente digital.
O Five Eyes também atua fora da espionagem tradicional
Em agosto de 2026, ministros de Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos se reuniram em Sydney para discutir ameaças estatais, terrorismo, crime organizado transnacional, segurança de grandes eventos e inteligência artificial.
No mesmo período, os cinco governos apoiaram uma iniciativa coordenada contra redes internacionais de fraude e golpes digitais, com compartilhamento de informações entre governos, forças de segurança e empresas.
Isso mostra como a lógica original do Five Eyes evoluiu. A estrutura criada para compartilhar inteligência durante a Guerra Fria hoje também é utilizada para enfrentar ameaças digitais e criminosas que atravessam fronteiras.
E onde entra a inteligência de sinais?
Imagine que uma operação internacional dependa de descobrir quem está se comunicando, com quem, por quais meios, quando determinada comunicação ocorreu e qual relação existe entre diferentes eventos.
Essas informações, quando obtidas legalmente e dentro das competências de cada agência, podem ser cruzadas com outras fontes de inteligência.
Brasil no centro das operações
Há um exemplo muito recente e documentado no Brasil que se encaixa perfeitamente para explicar como a cooperação de inteligência envolvendo um país do Five Eyes pode aparecer na prática.
URGENTE! EUA suspendem atendimento presencial na Embaixada e nos consulados no Brasil por questões de segurança.
Os Estados Unidos suspenderam o atendimento nesta sexta-feira (2). A Embaixada orientou cidadãos americanos que precisem de assistência emergencial a não comparecer… pic.twitter.com/qwG09zAnWa
— Área Militar (@areamilitarof) October 2, 2026
Em 2 de outubro, a Polícia Federal realizou duas operações de busca e apreensão, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal, para investigar um suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco instalações diplomáticas dos Estados Unidos.
O ponto mais relevante para sua matéria está na própria nota oficial da PF: a investigação sigilosa foi realizada “fruto da cooperação permanente com agências de inteligência estrangeiras”. Até aquele momento, porém, a PF informou que não havia encontrado elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados nem identificado suspeitos ligados a organizações criminosas. Equipamentos de comunicação e mídias foram apreendidos e continuaram sob análise.
No mesmo período, os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares no Brasil por razões de segurança. Pouco depois, a Austrália, que integra o Five Eyes juntamente com EUA, Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia, também suspendeu o atendimento em sua embaixada e consulados, citando preocupações de segurança e orientando seus cidadãos a evitar instalações diplomáticas americanas.
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