Confrontos eclodem entre forças federais da Etiópia e rebeldes tigrínios

Rebeldes avançando sobre a capital Mek'ele, o coração político e econômico da Etiópia. ©Área Militar
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A Etiópia voltou a enfrentar um dos momentos mais delicados de sua recente história. Nesta quarta-feira (23), forças ligadas à Frente de Libertação do Povo de Tigré (TPLF) assumiram o controle do aeroporto de Mek’ele, capital da região de Tigré, encquanto combates foram registrados também na vizinha região de Afar.

O episódio representa uma escalada significativa depois de meses de tensão entre o governo federal e as autoridades de Tigré. Fontes locais e de segurança confirmaram a tomada do aeroporto, enquanto a Ethiopian Airlines suspendeu os voos para Mek’ele, Axum e Shire devido à situação na região.

O governo regional de Tigré afirmou que suas forças entraram em uma “guerra defensiva” contra tropas federais. Até o momento da publicação, o governo central não havia apresentado uma resposta pública detalhada sobre os acontecimentos.

Quem são os rebeldes de Tigré?

Para entender o que está acontecendo agora, é preciso voltar algumas décadas. A TPLF, sigla em inglês para Tigray People’s Liberation Front, é um movimento político e militar formado principalmente por integrantes do povo tigrínio, concentrado no norte da Etiópia.

O grupo ganhou enorme influência durante a guerra contra o regime militar etíope e, em 1991, participou da derrubada do governo de Mengistu Haile Mariam.

A partir daquele momento, a TPLF tornou-se a principal força dentro da coalizão que governou a Etiópia durante décadas.

Isso mudou com a chegada de Abiy Ahmed ao cargo de primeiro-ministro, em 2018. Abiy promoveu uma reorganização política e criou o Partido da Prosperidade, reduzindo a influência que a TPLF exercia sobre a política nacional.

A relação entre os dois lados deteriorou-se rapidamente e acabou levando à guerra aberta em 2020.

A guerra que matou centenas de milhares

Entre 2020 e 2022, forças ligadas à TPLF enfrentaram o Exército Federal da Etiópia, com participação de forças de outras regiões e da vizinha Eritreia.

Foi um dos conflitos mais devastadores da África nas últimas décadas.

Estimativas citadas pela União Africana apontam para aproximadamente 600 mil mortes durante o conflito. Milhões de pessoas foram deslocadas e a infraestrutura de Tigré foi severamente destruída.

Por que a guerra está voltando agora?

O cenário começou a se deteriorar novamente nos últimos meses. A TPLF voltou a exercer maior controle político sobre Tigré e acusou o governo federal de não implementar completamente o acordo de paz.

Ao mesmo tempo, o governo de Abiy acusa setores ligados à TPLF de se rearmarem. Relatos recentes também apontam para ataques com drones e concentração de tropas nas proximidades de Tigré.

Mas existe uma mudança importante em relação à guerra anterior.

Desta vez, a TPLF não está isolada. Em 21 de setembro, sete grupos armados etnicamente diferentes anunciaram uma aliança contra o governo de Abiy Ahmed, denominada Ethiopian Peoples’ Forces Alliance for Survival.

Entre eles estão antigos inimigos. A aliança inclui a TPLF, o movimento Fano, associado à região de Amhara, e o Oromo Liberation Army, entre outros grupos.

Isso é particularmente significativo porque Fano e TPLF chegaram a lutar em lados opostos durante a guerra de 2020–2022.

Agora, os dois grupos afirmam ter um objetivo comum: pressionar pela saída do governo de Abiy e pela criação de uma administração de transição.

O avanço estratégico das forças tigrínias

O aeroporto de Mek’ele não é apenas uma instalação utilizada pela aviação civil. Ele está localizado na capital de Tigré e representa uma infraestrutura estratégica para movimentação de pessoas e logística.

A tomada do aeroporto pelas forças tigrínias, portanto, demonstra que a situação deixou de ser apenas uma disputa política. Ela indica que forças armadas ligadas à TPLF estão novamente dispostas a assumir o controle físico de pontos estratégicos do território.

Além disso, os combates registrados em Abala e Erebti, na região de Afar, mostram que a crise pode ultrapassar as fronteiras administrativas de Tigré.

Tensões regionais da crise

A capital Mek’ele faz fronteira com a Eritreia, país que participou diretamente da guerra de 2020–2022 contra a TPLF. No entanto, a relação entre Etiópia e Eritreia se deteriorou novamente.

O governo etíope acusa a Eritreia de apoiar grupos que atuam contra Abiy Ahmed. A Eritreia nega essas acusações.

Relatórios de monitoramento de conflitos citados pela Euronews também apontam alegações de movimentação de tropas e apoio eritreo a forças ligadas aos tigrínios, embora essas questões envolvam informações que nem sempre podem ser verificadas de forma independente.

Por isso, uma nova guerra em Tigré poderia rapidamente deixar de ser apenas um conflito interno etíope.

As consequências para toda a África

O que acontece na Etiópia pode ter consequências que vão muito além das fronteiras do país. A Etiópia é uma das principais potências políticas e demográficas do Chifre da África e ocupa uma posição estratégica próxima ao Mar Vermelho, uma das áreas mais importantes para o comércio e para a segurança internacional.

Avanço do grupo rebelde sobre a capital Mek’ele. ©Área Militar

Uma nova escalada militar em Tigré poderia, portanto, aumentar a pressão sobre toda a região. O conflito pode provocar uma nova onda de deslocamentos, dificultar a chegada de ajuda humanitária e comprometer rotas de transporte e comércio que ligam a Etiópia a países vizinhos e ao litoral do Mar Vermelho.

O risco também envolve os países ao redor. Sudão, Eritreia, Djibuti e Somália já enfrentam diferentes níveis de instabilidade política e militar, e uma nova guerra na Etiópia poderia aumentar a pressão sobre suas fronteiras e criar novas áreas de tensão.

Outro fator de preocupação é a possibilidade de maior envolvimento de atores externos e grupos armados regionais. Quanto mais prolongado for o conflito, maior tende a ser o risco de circulação de armas, deslocamento de combatentes e expansão da instabilidade para áreas próximas.


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