Maduro pode enfrentar novas acusações nos EUA por suposta tortura de americanos

O Ditador da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, podem enfrentar novas acusações criminais nos Estados Unidos relacionadas à suposta tortura de cidadãos americanos mantidos sob custódia do governo venezuelano durante os anos em que Maduro esteve no poder.

Segundo pessoas familiarizadas com a investigação ouvidas pela CNN, promotores federais de Nova York preparam novas acusações contra o casal. A apresentação formal do novo processo pode ocorrer já nesta quinta-feira, 8 de outubro.

O caso amplia significativamente a situação judicial de Maduro nos Estados Unidos. O ditador venezuelano já responde a acusações criminais em Nova York e permanece preso no país junto com Cilia Flores. Os dois se declararam inocentes das acusações anteriores.

Mais de uma dúzia de americanos

De acordo com as informações de jornais americanos, a nova investigação está relacionada à detenção de mais de uma dúzia de cidadãos americanos em prisões venezuelanas durante o período em que Maduro comandava o país.

As autoridades americanas classificaram essas detenções como indevidas. A investigação agora busca determinar a responsabilidade de Maduro, de sua esposa e possivelmente de outras pessoas por atos de tortura que teriam ocorrido contra alguns desses detidos.

O número exato de vítimas e suas identidades ainda não foram divulgados publicamente.

Também não está claro, neste momento, quais acusações específicas serão apresentadas contra cada um dos envolvidos. Segundo uma fonte familiarizada com o caso, investigadores americanos chegaram a discutir a possibilidade de acusar outras pessoas que teriam participado dos supostos abusos.

O que muda para Maduro

A principal consequência é que Maduro pode passar a enfrentar um processo criminal ainda mais amplo nos Estados Unidos.

O ponto importante é que novas acusações não significam, por si só, uma condenação. Trata-se de alegações apresentadas pelos promotores, que ainda precisam ser analisadas pela Justiça. Pela legislação americana, os acusados são considerados inocentes até que sua culpa seja estabelecida em tribunal.

No caso de Maduro, entretanto, a abertura de uma nova frente judicial aumenta a quantidade de acusações que ele terá de enfrentar enquanto permanece sob custódia americana.

Caso pode envolver outros integrantes do antigo governo

A investigação não necessariamente ficará restrita a Maduro e Cilia Flores.

Fontes afirmam que os investigadores também analisaram a possibilidade de apresentar acusações contra outras pessoas que teriam participado dos supostos atos de tortura.

Isso significa que o processo pode atingir integrantes do antigo aparato de segurança venezuelano, caso os promotores concluam que existem provas suficientes para responsabilizá-los criminalmente.

Até o momento, porém, os nomes dessas possíveis pessoas ainda não foram divulgados.

As novas acusações surgem enquanto Maduro já enfrenta um processo criminal em Nova York.

O ditador e Cilia Flores foram levados aos Estados Unidos em janeiro, após uma operação militar americana em Caracas, e posteriormente apresentados à Justiça federal. Eles se declararam inocentes das acusações existentes e permanecem detidos em Nova York.

A nova investigação, portanto, representa uma expansão do caso judicial contra o antigo líder venezuelano. Apesar da gravidade das acusações, diversos detalhes permanecem sob sigilo.

Ainda não foram divulgados publicamente todos os nomes das possíveis vítimas, quais métodos de tortura teriam sido utilizados, quais agentes teriam participado diretamente dos abusos ou quais provas os promotores pretendem apresentar.

Também será necessário aguardar a formalização das novas acusações para saber exatamente quais crimes serão atribuídos a Maduro e Cilia Flores.

Se confirmada, a medida acrescentará um novo e importante capítulo ao processo judicial contra Nicolás Maduro nos Estados Unidos, colocando no centro do caso não apenas as acusações criminais que ele já enfrenta, mas também alegações de graves abusos cometidos contra cidadãos americanos enquanto estavam presos na Venezuela.

EUA deslocam drones MQ-9 Reaper para Colômbia e Equador e ampliam presença militar na América do Sul

Os Estados Unidos estão ampliando sua atuação militar na América do Sul com o deslocamento de drones MQ-9 Reaper para Colômbia e Equador, em uma operação apresentada por Washington como parte do esforço de combate ao narcotráfico e a organizações criminosas.

A movimentação representa uma mudança importante na presença militar americana na região e ocorre em meio ao fortalecimento da cooperação entre Washington, Bogotá e Quito.

Os MQ-9 Reaper são aeronaves remotamente pilotadas de grande autonomia, capazes de permanecer muitas horas no ar e realizar missões de inteligência, vigilância e reconhecimento. Embora sejam conhecidos também por sua capacidade de ataque de precisão, o emprego anunciado na América do Sul está principalmente associado à coleta de informações e monitoramento de grupos ligados ao tráfico de drogas.

Drones deixam a África e chegam à América do Sul

Segundo informações obtidas pela CNN, os equipamentos estavam anteriormente vinculados a operações americanas na África. O deslocamento para o comando militar responsável pela América do Sul faz parte de uma reorganização dos recursos dos Estados Unidos, que passaram a concentrar maior atenção no Hemisfério Ocidental.

Nos últimos meses, Washington aumentou a cooperação militar com governos da região e passou a defender uma participação mais direta das Forças Armadas americanas no combate a organizações classificadas pelos Estados Unidos como ameaças terroristas ou criminosas.

Colômbia e Equador se aproximam de Washington

No Equador, forças americanas já participam de operações conjuntas contra organizações criminosas. Em uma dessas ações, os Estados Unidos utilizaram meios navais e aéreos em colaboração com Quito para combater estruturas ligadas ao narcotráfico.

Na Colômbia, Washington também vem ampliando os acordos de segurança. Em setembro, os dois países assinaram novos acordos envolvendo controle de fronteiras, identificação biométrica e combate a redes criminosas transnacionais.

Bogotá também anunciou planos para modernizar suas capacidades militares, incluindo drones e forças especiais. Na prática, portanto, os MQ-9 representam apenas uma parte de uma aproximação militar muito maior.

Pressão máxima – Corolário Trump

A justificativa oficial é combater o narcotráfico e organizações criminosas que, segundo os Estados Unidos, representam uma ameaça à segurança nacional americana.

Mas existe também uma dimensão estratégica. Ao transferir equipamentos militares da África para a América Latina, Washington demonstra que o Hemisfério Ocidental passou a ocupar uma posição mais importante na estratégia de segurança do governo Donald Trump. Apolítica combina combate ao narcotráfico, fortalecimento de alianças regionais e aumento da influência americana.

Essa mudança ocorre paralelamente aos planos americanos de ampliar operações terrestres contra organizações criminosas na América Latina. O secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, já afirmou que Washington trabalha com países parceiros, entre eles Colômbia e Equador, para realizar esse tipo de operação.

A postura atual do governo americano faz parte do chamado “Corolário Trump”, que pode ser entendido como uma ampliação da atuação dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, especialmente no combate ao narcotráfico e às organizações criminosas.

A estratégia combina pressão diplomática, cooperação militar e maior uso de inteligência e tecnologia, como drones, para reforçar a presença americana na região. Na prática, representa uma releitura contemporânea da tradicional influência estratégica de Washington sobre as Américas.

Por que isso chama atenção no Brasil?

O aumento da presença militar americana na América do Sul também provoca preocupação em Brasília. O principal ponto de atenção é que drones como o MQ-9 possuem capacidade de realizar vigilância de grandes áreas e coletar informações a distância.

Por isso, qualquer expansão dessas operações levanta discussões sobre soberania, inteligência militar e até sobre os limites da atuação estrangeira no espaço aéreo regional.

Isso não significa, porém, que os Estados Unidos estejam preparando uma operação militar contra o Brasil, pelo contrário, nunca foi cogitado publicamente pelos americanos.

A missão anunciada está relacionada principalmente ao combate ao narcotráfico e ao apoio às forças colombianas e equatorianas. O ponto mais relevante é outro: Washington está transformando o combate às organizações criminosas em uma questão cada vez mais ligada à sua estratégia militar para a América Latina.

Uma nova fase na presença dos EUA

O deslocamento dos MQ-9 Reaper mostra que a política americana para a região deixou de se limitar a acordos diplomáticos e assistência militar. Agora, Washington está colocando capacidade operacional e inteligência aérea diretamente à disposição de parceiros sul-americanos.

A medida também ocorre enquanto os Estados Unidos realizam operações contra embarcações suspeitas de envolvimento com o narcotráfico no Caribe e no Pacífico Oriental e aprofundam a cooperação com países latino-americanos.

O resultado é uma transformação gradual do papel americano na região: menos dependência de ações exclusivamente policiais e mais participação militar direta no combate ao crime organizado.

Para Colômbia e Equador, a chegada dos drones representa acesso a uma capacidade de vigilância extremamente sofisticada. Para Washington, significa ampliar sua capacidade de acompanhar e atingir redes criminosas.

Trump lança estaleiro militar de US$ 6,6 bilhões nos EUA para acelerar produção de submarinos nucleares

O governo dos Estados Unidos deu nesta terça-feira (6) um passo de grande importância para ampliar sua capacidade de construção naval militar. Em Sparrows Point, no estado de Maryland, o presidente Donald Trump anunciou um novo projeto industrial que reúne US$ 3,7 bilhões em investimentos da Anduril Industries e até US$ 2,9 bilhões em contratos da Marinha dos EUA, totalizando potencialmente US$ 6,6 bilhões.

O empreendimento, chamado Arsenal-2, será instalado em uma área que durante décadas esteve ligada à indústria siderúrgica americana. A antiga unidade da Bethlehem Steel encerrou suas atividades em 2012, e agora o local será transformado em um importante polo da indústria de defesa.

O futuro da frota naval americana!

Apesar de o anúncio político falar em uma nova era para a construção de submarinos, há uma diferença importante: o Arsenal-2 não será, inicialmente, uma linha tradicional para fabricar submarinos completos.

A instalação deverá produzir componentes e grandes estruturas destinados principalmente aos submarinos nucleares de ataque da classe Virginia, incluindo equipamentos como tubos de torpedo e portas, além de outros módulos que integram essas embarcações.

A Anduril também pretende ampliar posteriormente sua produção para módulos maiores e seções de casco.

A empresa afirma ainda que o complexo terá capacidade para trabalhar com sistemas submarinos autônomos, colocando a Anduril, conhecida principalmente por drones, sistemas autônomos e softwares militares, em uma posição cada vez mais relevante dentro da indústria naval americana.

Por que Washington está fazendo isso agora?

O projeto faz parte de uma estratégia maior dos Estados Unidos para aumentar rapidamente a capacidade de sua indústria de defesa. A construção de submarinos nucleares americanos enfrenta uma combinação de fatores: cadeia de fornecedores limitada, falta de capacidade industrial, escassez de mão de obra especializada e atrasos em programas de construção naval.

Em agosto, a Casa Branca já havia determinado uma ampla iniciativa para reconstruir a indústria naval americana, apontando justamente para a falta de capacidade e competição no setor.

O governo também determinou estudos para ampliar a capacidade de construção e manutenção de navios militares e criar uma quinta instalação pública da Marinha.

O Arsenal-2 surge, portanto, como uma tentativa de atacar um dos principais gargalos da estratégia naval americana: não basta encomendar mais submarinos se a indústria não consegue produzir seus componentes na velocidade necessária.

Um ponto importante do acordo é a composição dos valores. A Anduril deverá investir US$ 3,7 bilhões de capital próprio na construção do complexo. Paralelamente, a Marinha americana concedeu à empresa um contrato de até US$ 2,9 bilhões relacionado à produção dos componentes submarinos.

De acordo com informações divulgadas sobre o projeto, o governo americano também terá uma participação de 40% no empreendimento, embora os detalhes dessa estrutura de propriedade sejam incomuns e ainda estejam sendo debatidos.

A proposta representa uma participação direta do Estado em uma empresa privada de defesa em uma escala pouco habitual nos Estados Unidos.

O impacto sobre a indústria militar americana

A nova instalação deverá  criar mais de 3.100 empregos diretos, além de sustentar milhares de outros postos de trabalho na cadeia de fornecedores. O governo de Maryland estima que o projeto possa apoiar mais de 14 mil empregos entre posições diretas e indiretas.

Para Washington, entretanto, o aspecto mais importante não é apenas a geração de empregos.

É a tentativa de recuperar uma capacidade industrial que os Estados Unidos consideram estratégica para uma eventual competição militar prolongada com grandes potências.

Os submarinos da classe Virginia são algumas das principais plataformas de ataque subaquático da Marinha americana. São submarinos de propulsão nuclear empregados em missões que incluem guerra antissubmarino, inteligência, vigilância e ataques contra alvos terrestres.

A expansão da produção ocorre em um momento no qual Washington busca aumentar sua capacidade militar diante da crescente competição estratégica internacional.

O efeito das guerra no Leste Europeu e no Oriente Médio

A guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio também expuseram uma realidade que preocupa os Estados Unidos: guerras modernas consomem grandes quantidades de equipamentos, munições e componentes, e uma potência militar precisa ter capacidade industrial para repor suas perdas e manter a produção durante uma crise prolongada.

Durante o anúncio, Trump apresentou o projeto como parte de uma retomada da indústria naval americana e afirmou que a iniciativa representa algo sem precedentes desde o período da Segunda Guerra Mundial.

URGENTE!! Após morte suspeita por peste na Rússia, EUA reforçam aviso “Não Viaje” e cidadãos devem partir imediatamente

O Departamento de Estado dos EUA acaba de publicar um alerta de saúde sobre a região de Irkutsk, na Sibéria russa. O texto informa que a Embaixada americana está ciente de reportagens da imprensa sobre um caso suspeito de peste pneumônica que resultou na morte de uma pessoa, além de medidas de quarentena e fechamentos de hospitais na área. O governo americano afirma que continua acompanhando a situação de perto.

O alerta destaca que a capacidade dos EUA de auxiliar cidadãos americanos na Rússia é limitada, sobretudo fora de Moscou. Mantém-se o aviso de viagem de Nível 4 (“Não viaje”) e reitera que americanos atualmente no país devem partir imediatamente.

Quem planeja ir à Rússia é novamente aconselhado a não viajar, por risco de detenção arbitrária e preocupações de segurança.

O que se sabe do caso

A morte envolve Darya (ou Daria) Shipilova, técnica de laboratório de 28 anos do Instituto de Pesquisa Anti-Peste de Irkutsk da Sibéria e do Extremo Oriente, instituição que estuda patógenos perigosos, inclusive a peste.

Local do vazamento da bactéria causadora da peste pneumônica em Irkutsk, na Rússia. Imagem: ©Área Militar

Ela foi internada no fim de setembro com quadro respiratório grave e morreu por volta de 1º ou 2 de outubro em hospital de Shelekhov, cidade vizinha a Irkutsk.

As autoridades russas (Rospotrebnadzor) classificam a causa como “pneumonia de etiologia desconhecida” e negam ter confirmado peste. Informaram à OMS que não há casos registrados de peste em Irkutsk, que os contatos foram identificados e monitorados, e que testes de patógenos perigosos nesses contatos deram negativo, sem sintomas.

Cerca de 200 pessoas teriam sido colocadas sob observação ou quarentena; parte já foi liberada, segundo relatos locais. Houve restrições em hospitais da região (incluindo Shelekhov), embora várias unidades tenham negado fechamentos totais de três semanas.

A OMS avaliou o risco como moderado a baixo para Irkutsk, baixo para o restante da Rússia e muito baixo para a Europa, sem sinais de transmissão mais ampla até o momento. Circulam versões não confirmadas sobre acidente de laboratório (quebra de tubo com bactéria), viagem à Tailândia ou contato em área próxima à Mongólia; não há evidência pública que sustente qualquer delas, e o órgão russo de vigilância sanitária rejeitou a hipótese de acidente com material patogênico.

A peste pneumônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, é a forma que pode se transmitir de pessoa para pessoa por gotículas respiratórias e é grave se não tratada cedo com antibióticos. A região tem ocorrência natural da bactéria em animais selvagens, o que explica a existência do instituto de pesquisa.

O alerta americano combina o episódio de saúde com o quadro de segurança já existente na Rússia, sem afirmar que a peste foi confirmada, limita-se aos “relatos da imprensa” de caso suspeito.

EUA e China discutem visitas a instalações nucleares em tentativa de reduzir risco de nova corrida armamentista

Os Estados Unidos e a China estão discutindo a possibilidade de permitir visitas recíprocas a instalações relacionadas aos seus programas nucleares, segundo informações inéditas obtidas pela CNN.

As conversas ainda estão em estágio inicial e informal, mas podem representar uma tentativa de reduzir os riscos de uma escalada nuclear entre Washington e Pequim.

A proposta prevê, entre outras possibilidades, visitas de representantes americanos a laboratórios nacionais ligados ao Departamento de Energia dos EUA e o acesso de representantes chineses a instalações equivalentes na China. Também existe abertura americana para discutir possíveis visitas a locais relacionados a testes nucleares.

Uma proposta que partiu da China

Um dos aspectos mais relevantes da negociação é que a ideia de visitas recíprocas teria sido apresentada inicialmente por representantes chineses durante contatos com autoridades americanas neste ano.

As conversas ocorreram principalmente à margem de reuniões envolvendo os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França.

Apesar disso, não existe até o momento um acordo formal entre Washington e Pequim.

Por que isso é importante?

A iniciativa ocorre em um momento delicado para o controle de armas nucleares.

O último acordo estratégico de controle de armas entre Estados Unidos e Rússia, o New START, expirou em fevereiro de 2026. Com isso, desapareceu uma das principais estruturas que durante anos estabeleceram limites e mecanismos de verificação para os arsenais estratégicos americano e russo.

Ao mesmo tempo, a China vem ampliando sua capacidade nuclear. Washington tem demonstrado preocupação especialmente com a velocidade e a falta de transparência percebida na expansão chinesa.

Pequim, por sua vez, argumenta que seu arsenal continua muito menor do que os estoques mantidos pelos Estados Unidos e pela Rússia.

Esse ponto é central para entender a posição chinesa: Pequim historicamente resistiu a participar de negociações de controle de armas nos mesmos moldes aplicados às duas maiores potências nucleares.

Visitar uma instalação não significa abrir o arsenal

As possíveis visitas não significariam que Estados Unidos ou China estariam dispostos a revelar integralmente o tamanho, a localização ou a capacidade de seus arsenais nucleares.

A ideia seria muito mais limitada: permitir algum nível de transparência para que cada lado compreenda melhor as estruturas e procedimentos do outro.

Para Washington, isso poderia ajudar a reduzir o risco de interpretações equivocadas durante uma eventual crise. Para Pequim, poderia representar uma forma de estabelecer mecanismos de confiança sem necessariamente assumir, neste momento, compromissos de redução de armas.

SOUTHCOM fala em mobilização militar em 18 horas – A Doutrina Airborne confundida com a crise no Brasil

Uma publicação do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) chamou atenção nesta quinta-feira (1º) ao destacar que militares americanos podem estar prontos para uma operação em até 18 horas após receberem uma ordem. A mensagem ganhou repercussão no Brasil porque foi divulgada praticamente ao mesmo tempo em que os Estados Unidos adotaram medidas de segurança em suas representações diplomáticas no país.

Mas há uma diferença importante entre uma demonstração de capacidade militar e uma ordem para mobilizar tropas.

18 horas, uma doutrina Airborne!

A 82ª Divisão Aerotransportada, sediada em Fort Bragg, na Carolina do Norte, é uma das principais forças de resposta rápida do Exército americano.

Sua missão oficial prevê que a unidade esteja preparada para se deslocar rapidamente quando receber uma ordem, realizar operações aerotransportadas e assumir posições consideradas importantes para permitir a chegada de outras forças.

A própria documentação militar americana descreve o XVIII Corpo Aerotransportado como uma força capaz de ser empregada globalmente e sem aviso prévio. O objetivo é justamente manter tropas em estado de prontidão para crises que possam exigir uma resposta rápida.

Portanto, quando o SOUTHCOM publica uma mensagem dizendo “18 hours notice”, isso não significa, por si só, que uma operação tenha sido autorizada.

Significa que existe uma força treinada e estruturada para conseguir sair rapidamente caso uma autoridade americana determine seu emprego.

É uma diferença fundamental.

Por que o SOUTHCOM publicou isso agora?

É justamente aqui que surge a dúvida. O SOUTHCOM é responsável pela área militar americana que inclui a América Central, a América do Sul e o Caribe. O Brasil está formalmente dentro de sua área de responsabilidade.

Isso faz com que qualquer mensagem do comando sobre capacidade militar na região naturalmente seja observada com atenção no Brasil.

Entretanto, a publicação analisada não menciona o Brasil como alvo, não anuncia uma operação em território brasileiro e não apresenta uma ordem de deslocamento da 82ª Divisão para o país.

A mensagem, portanto, pode ser lida como uma demonstração de prontidão militar, mas não há, nas informações públicas verificadas, evidência suficiente para afirmar que as “18 horas” sejam um prazo estabelecido para uma missão contra o Brasil.

A Doutrina Monroe

Outro elemento que chamou atenção foi a publicação de conteúdo relacionado à Doutrina Monroe por canais diplomáticos americanos.

A Doutrina Monroe surgiu em 1823 e historicamente estabeleceu uma posição americana contrária à expansão e à intervenção de potências europeias no Hemisfério Ocidental. O próprio Departamento de Estado dos EUA descreve o conceito como uma estrutura histórica da política externa americana voltada para os interesses de segurança e comerciais dos Estados Unidos no hemisfério.

A combinação das duas mensagens — uma falando de capacidade militar de resposta rápida e outra mencionando a Doutrina Monroe — naturalmente produz uma leitura mais ampla sobre a política americana para o continente.

Mas é necessário cuidado. Uma publicação sobre uma doutrina histórica não transforma automaticamente uma demonstração de prontidão militar em uma ameaça específica contra determinado país.

O Brasil aparece no cenário?

Sim, mas por outro motivo. O Brasil faz parte da área de responsabilidade do SOUTHCOM e mantém histórico de cooperação militar com os Estados Unidos.

O próprio comando americano já destacou exercícios e atividades de cooperação com o Exército Brasileiro, inclusive envolvendo militares brasileiros em atividades de treinamento nos Estados Unidos com participação da 82ª Divisão Aerotransportada.

Isso demonstra que a relação militar entre Washington e Brasília não é exclusivamente baseada em competição ou ameaça. Existe também uma estrutura de cooperação institucional construída ao longo de anos.

Ao mesmo tempo, o contexto atual é mais sensível porque os Estados Unidos adotaram medidas de segurança em suas representações diplomáticas no Brasil, enquanto outros países também emitiram alertas a seus cidadãos.

A publicação do SOUTHCOM ocorreu antes da mudança no funcionamento das representações diplomáticas americanas no Brasil e um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que a segurança dos cidadãos americanos é uma prioridade e que Washington trabalha com as autoridades brasileiras em questões de segurança.

Essa coincidência temporal é relevante para o noticiário, mas não prova que a publicação militar tenha sido uma preparação para uma intervenção no Brasil.

Existe uma ameaça militar ao Brasil?

A resposta é fundamentalmente imutável: NÃO!

Até o momento, as informações públicas e movimentos militares analisados não permitem afirmar isso.

O que existe é uma combinação de acontecimentos que merece acompanhamento: medidas de segurança diplomática, alertas dirigidos a cidadãos americanos, movimentação de comunicação estratégica dos Estados Unidos e uma publicação do SOUTHCOM enfatizando a capacidade de resposta rápida de uma unidade militar americana.

Mas esses elementos precisam ser separados.

A capacidade de mobilizar uma força em 18 horas é uma característica conhecida da 82ª Divisão Aerotransportada. O Exército americano já descreve essa capacidade há anos, inclusive associando a unidade à função de força de resposta imediata.

Portanto, o número de 18 horas, isoladamente, não deve ser interpretado como uma contagem regressiva para uma ação militar no Brasil.

Elon Musk nomeado co-líder do projeto Meridian do Pentágono para planejar a guerra do futuro

O secretário de guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou em 30 de setembro, durante um discurso na Base do Corpo de Fuzileiros Navais em Quantico, na Virgínia, a criação do Project Meridian, uma iniciativa do Pentágono destinada a estudar como poderá ser a guerra nas próximas décadas — e quais tecnologias os Estados Unidos precisarão desenvolver para enfrentar esse cenário.

A iniciativa terá Elon Musk, CEO da SpaceX e da Tesla, como um de seus três líderes, ao lado de Palmer Luckey, fundador da empresa de tecnologia de defesa Anduril, e Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. O projeto será conduzido com a participação do diretor de tecnologia do Departamento de Defesa, Emil Michael.

250320-D-PM193-1106 O Secretário de Guerra Pete Hegseth e o Senador dos EUA Roger Wicker. Foto: Suboficial de 1ª Classe da Marinha dos EUA Alexander Kubitza

A ideia, segundo Hegseth, não é simplesmente produzir mais um documento de estratégia militar. O objetivo é identificar quais áreas tecnológicas serão decisivas nos próximos conflitos e quais capacidades os Estados Unidos precisam começar a desenvolver agora.

Em termos simples, o Pentágono quer tentar responder a uma pergunta: como será a guerra de 2030, 2050 ou até 2100 — e que armas e sistemas os militares americanos precisarão ter quando esses conflitos chegarem?

O projeto terá prazo inicial de 120 dias para apresentar suas conclusões. A previsão é que o trabalho resulte em um relatório público acompanhado de uma parte classificada, que não será divulgada integralmente.

Musk retorna ao ambiente governamental

A participação de Musk também chama atenção porque representa seu retorno a uma função oficial ligada ao governo americano depois de sua passagem pelo Departamento de Eficiência Governamental, conhecido como DOGE.

Desta vez, porém, sua atuação está diretamente relacionada ao futuro tecnológico das Forças Armadas. A escolha também ganha relevância porque a SpaceX, empresa comandada por Musk, já possui contratos importantes com o governo americano na área espacial e de segurança nacional. A Anduril, de Palmer Luckey, também fornece tecnologias ao Departamento de Guerra.

O envolvimento de executivos de empresas que já trabalham com o Pentágono coloca o projeto no centro de uma discussão sobre como o governo americano pretende aproximar empresas de tecnologia, inteligência artificial e indústria de defesa.

Projeto Meridian não é o novo comando de guerra autônoma (Autonomous Warfare Command)

Apesar de terem sido anunciados no mesmo discurso, o Project Meridian e o Autonomous Warfare Command são iniciativas diferentes.

O Autonomous Warfare Command, também anunciado por Hegseth em Quantico, será uma nova estrutura militar de quatro estrelas destinada a ampliar o emprego de drones, robôs, inteligência artificial e outros sistemas autônomos pelas Forças Armadas americanas.

O Meridian, por sua vez, terá uma função mais voltada para estudar e antecipar o futuro da guerra, identificando tecnologias e capacidades que poderão ser necessárias nos próximos conflitos.

A diferença pode ser resumida assim: enquanto o Autonomous Warfare Command deverá ajudar o Pentágono a empregar sistemas autônomos dentro da estrutura militar, o Project Meridian pretende olhar mais adiante e identificar o que os Estados Unidos deveriam desenvolver para a próxima geração de guerras.

O que está no radar do projeto

Entre os temas considerados estão tecnologias emergentes e novos ambientes de combate, incluindo inteligência artificial, robótica, espaço e operações em ambientes subterrâneos. O objetivo é antecipar mudanças que possam alterar profundamente a maneira como os conflitos são travados.

Nota: A guerra na Ucrânia se tornou um dos principais laboratórios da guerra moderna, onde tecnologias e táticas são testadas em condições reais de combate. Drones de diferentes tipos, inteligência artificial, guerra eletrônica, reconhecimento por satélite, mísseis de precisão e sistemas autônomos vêm sendo empregados e adaptados em um ritmo acelerado, oferecendo às forças militares e às empresas de defesa informações que dificilmente poderiam ser obtidas apenas em exercícios militares. A experiência do conflito também mostra como a combinação entre tecnologia, informação e velocidade de decisão pode alterar o campo de batalha e influenciar o planejamento militar de países que já se preparam para os conflitos das próximas décadas.

Donald Trump assina ordem para substituir “inteligência artificial” por “superinteligência”

WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta terça-feira (29) uma ordem executiva que determina que órgãos do governo americano passem a utilizar o termo “superinteligência”, em vez de “inteligência artificial”, em documentos, declarações públicas e materiais oficiais.

A medida formaliza uma mudança de linguagem que Trump já havia anunciado durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro. Para o presidente, a palavra “artificial” daria a impressão de que a tecnologia é falsa ou menos avançada do que realmente é.

Apesar do impacto simbólico da mudança, há uma diferença importante: a ordem não cria uma nova tecnologia nem transforma juridicamente a inteligência artificial em uma categoria diferente. O principal efeito imediato é determinar como o governo federal deverá se referir à tecnologia.

Trump quer que os EUA mantenham vantagem sobre a China

Por trás da mudança de terminologia está uma disputa muito maior.

Trump vem apresentando o desenvolvimento de sistemas avançados de IA como uma questão estratégica para os Estados Unidos. Segundo o presidente, Washington possui uma vantagem significativa sobre a China e precisa evitar medidas que possam reduzir o ritmo de desenvolvimento da indústria americana.

Em declarações recentes, Trump afirmou que não pretende “frear” uma tecnologia que, em sua avaliação, poderá ter impacto econômico maior que a própria Revolução Industrial.

A competição com Pequim é um dos principais argumentos utilizados pela Casa Branca para defender uma política de expansão acelerada da inteligência artificial.

A questão não envolve apenas empresas de tecnologia. A disputa inclui computação avançada, semicondutores, centros de dados, energia, pesquisa científica, segurança cibernética e aplicações militares.

Por isso, Washington considera a liderança em IA um elemento cada vez mais importante da competição estratégica entre Estados Unidos e China.

O que muda na prática?

Para o cidadão comum, a troca de nome não significa que os aplicativos, computadores ou sistemas de IA passarão imediatamente a funcionar de maneira diferente.

A mudança é principalmente administrativa e política.

O decreto determina a utilização de “super intelligence”, frequentemente abreviada como SI, nos materiais do governo americano. A Casa Branca ressalta que a ordem não estabelece, por si só, um novo marco regulatório para o setor privado.

Isso é importante porque o termo “superinteligência” já possui outro significado no debate tecnológico.

No campo da pesquisa em IA, superinteligência costuma descrever sistemas hipotéticos capazes de superar seres humanos em uma ampla variedade de tarefas intelectuais. Portanto, utilizar o termo como substituto geral de “inteligência artificial” pode gerar uma diferença entre a nomenclatura política adotada pelo governo e o significado técnico utilizado por pesquisadores.

Trump reúne gigantes da tecnologia na Casa Branca

A mudança ocorreu no mesmo dia em que Trump recebeu executivos de algumas das maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos.

Gigantes da tecnologia na Casa Branca. Foto: ©Área Militar/Reprodução

Entre os nomes presentes estavam Elon Musk e Mark Zuckerberg, além de executivos de empresas como Anthropic, Nvidia e outras companhias do setor.

Durante o encontro, Trump também anunciou um acordo voluntário envolvendo empresas de tecnologia.

O compromisso estabelece princípios e controles internos relacionados ao desenvolvimento e à utilização de sistemas avançados de IA. O presidente descreveu o acordo como “moralmente vinculante”, enquanto outros participantes o apresentaram como uma espécie de compromisso conjunto de segurança.

A característica voluntária do acordo é relevante.

Em vez de estabelecer imediatamente uma série de novas obrigações legais para as empresas, a administração Trump vem defendendo maior participação do próprio setor na definição de mecanismos de segurança.

Forças dos EUA deixam o Iraque após 20 anos: o país está preparado para ficar sem tropas americanas?

As últimas forças militares dos Estados Unidos estão deixando o Iraque, encerrando uma presença que começou com a invasão de 2003 e atravessou mais de duas décadas de guerras, ocupação, combate ao terrorismo e disputas de influência no Oriente Médio.

A retirada deve ser concluída até 30 de setembro e ocorre em um momento particularmente sensível: os Estados Unidos estão em conflito com o Irã, enquanto grupos armados ligados a Teerã possuem forte influência dentro do território iraquiano.

Será um novo Afeganistão?

Em 20021, os Estados Unidos encerram uma presença militar que durou muitos anos no Afeganistão e transferiram para as forças locais a responsabilidade pela segurança do país.

O principal risco, agora, está na possibilidade de surgir um vácuo de poder que seja aproveitado por grupos armados ou organizações extremistas no Iraque.

No entanto, existe uma diferença importante. O Iraque de 2026 não é o Afeganistão de 2021. O país possui forças armadas próprias, instituições políticas estabelecidas e uma estrutura de segurança que foi construída e treinada durante anos.

Além disso, o Estado Islâmico e milícias islâmicas não controlam atualmente grandes áreas do território iraquiano como o Talibã controlava partes significativas do Afeganistão antes da retirada americana. Portanto, não existe, neste momento, uma indicação de que esteja ocorrendo uma repetição direta do cenário que levou à queda de Cabul.

Porém, o Irã tem a ganhar estrategicamente com a saída da coalizão, pois isso elimina uma presença militar que, durante anos, serviu de contrapeso à influência de Teerã no Iraque.

De acordo com especialistas no assunto, os grupos de milícias islâmicas xiitas pró-Irã não só retratariam a saída como uma vitória para o seu movimento, mas também “procurariam traduzir esse ímpeto em maior influência sobre a segurança e a tomada de decisões políticas”.

Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, um grupo que engloba facções armadas apoiadas pelo Irã, descreveu a retirada dos EUA como “uma vitória histórica para os grupos de resistência islâmica iraquianos e para os iraquianos honrados, e uma derrota esmagadora para o projeto americano”.

A saída representa uma mudança importante no equilíbrio de poder dentro do Iraque. Para o Irã e suas milícias aliadas, a retirada americana é apresentada como uma vitória.

Para setores da sociedade e das forças de segurança iraquianas, porém, existe o temor de que a ausência dos Estados Unidos reduza a capacidade de conter grupos armados e facilite uma eventual reorganização do Estado Islâmico.

Uma presença militar que começou em 2003

A história começou em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque para derrubar o governo de Saddam Hussein. A operação transformou completamente o país e deu início a anos de ocupação e combate contra grupos insurgentes.

As forças americanas deixaram o Iraque no final de 2011, mas retornaram menos de três anos depois. O motivo foi o avanço do Estado Islâmico, que havia conquistado grandes áreas do território iraquiano e sírio.

A partir de 2014, a missão americana passou a concentrar-se principalmente no apoio às forças iraquianas na luta contra o grupo extremista. O Estado Islâmico perdeu seu território e seu chamado califado foi derrotado militarmente, embora células clandestinas tenham permanecido ativas.

Durante esse período, cerca de 4.500 militares americanos morreram em operações relacionadas à guerra do Iraque ao longo de mais de duas décadas.

As forças de segurança que defenderão o Iraque

O sistema de segurança do Iraque é bastante fragmentado e reúne forças regulares do Estado, unidades de contraterrorismo, polícia, forças curdas e também grupos de mobilização tribal e milícias incorporadas formalmente à estrutura estatal.

Em termos simples, é possível imaginar o aparato de segurança iraquiano como várias camadas.

A principal é o Exército Iraquiano, subordinado ao Ministério da Defesa. É a força militar convencional responsável pela defesa do território e por operações contra grupos armados. Dentro dessa estrutura estão as forças terrestres, além de componentes como Força Aérea, aviação do Exército, Marinha e defesa aérea. O Exército é, portanto, uma instituição estatal regular, e não uma força tribal.

Depois existe o Ministério do Interior, que controla uma grande estrutura policial e paramilitar. Ela inclui a Polícia Federal, polícia provincial, forças de proteção de fronteiras, unidades de resposta a emergências e outras forças especializadas. A Polícia Federal, em particular, acabou adquirindo características bastante militarizadas depois dos anos de combate contra o Estado Islâmico.

Existe também o Serviço de Contraterrorismo do Iraque, conhecido como CTS. Essa é uma das forças mais importantes para operações especiais e combate ao terrorismo. Diferentemente do Exército e da Polícia Federal, o CTS responde diretamente ao primeiro-ministro iraquiano. Ele inclui unidades de operações especiais e foi criado justamente para enfrentar ameaças como a Al-Qaeda e, posteriormente, o Estado Islâmico.

E aí chegamos à parte mais complicada: as Forças de Mobilização Popular, conhecidas como PMF ou Hashd al-Shaabi. Elas foram criadas em 2014, quando o Estado Islâmico conquistou grandes áreas do Iraque. Depois da ofensiva do grupo contra Mosul e outras cidades, uma convocação religiosa do aiatolá Ali al-Sistani ajudou a mobilizar milhares de combatentes para enfrentar o Estado Islâmico.

Em 2016, o Parlamento iraquiano transformou a estrutura em uma formação militar oficialmente integrante das Forças Armadas e subordinada, em termos legais, ao comandante-em-chefe, o primeiro-ministro.

Mas aqui está a grande peculiaridade: as PMF não são um exército homogêneo. Elas funcionam como uma espécie de guarda-chuva que reúne dezenas de organizações armadas diferentes. A maioria é formada por árabes xiitas, mas também existem unidades sunitas, yazidis, cristãs e de outras minorias. Algumas dessas organizações possuem relações políticas próprias e algumas facções mantêm vínculos muito próximos com o Irã.

As Forças de Mobilização Tribal, ou Tribal Mobilisation/Hashd al-Asha’iri. Essas são diferentes das PMF xiitas tradicionais. Elas são compostas principalmente por combatentes de tribos árabes sunitas, especialmente em regiões que foram ocupadas pelo Estado Islâmico. Sua função historicamente foi combater o Estado Islâmico e depois ajudar a proteger as áreas reconquistadas.

O efeito Estado Islâmico x Fragilidade de segurança do Afeganistão em 2021

Depois do avanço do Estado Islâmico em 2014, o governo iraquiano precisava de uma estrutura capaz de mobilizar rapidamente milhares de combatentes. Surgiram ou foram ampliadas diversas forças de mobilização, incluindo grupos tribais e milícias.

Posteriormente, as Forças de Mobilização Popular (PMF/Hashd al-Shaabi) foram reconhecidas legalmente como parte das forças de segurança do Estado e colocadas formalmente sob autoridade do primeiro-ministro.

A diferença para o Afeganistão é significativa. O que ocorreu foi uma incorporação parcial e institucionalização de várias forças dentro do aparato estatal iraquiano, mantendo estruturas e cadeias de comando próprias em alguns casos.

Isso criou uma situação bastante peculiar: um combatente pode pertencer a uma organização que nasceu como milícia ou força local, mas estar oficialmente enquadrado dentro da estrutura de segurança do Estado iraquiano.

Isso é muito diferente do que ocorreu no Afeganistão. Ali, durante a retirada americana de 2021, o governo dependia principalmente das Forças de Segurança e Defesa Nacionais Afegãs (ANDSF), Exército, Força Aérea, polícia e unidades especiais. Quando o apoio americano desapareceu, essas estruturas começaram a entrar em colapso rapidamente em várias regiões, enquanto o Talibã avançava.

No Iraque, portanto, existe uma espécie de “redundância” de segurança. Se uma estrutura enfraquece, existem outras: Exército, contraterrorismo, polícia, PMF, forças tribais e Peshmerga. Isso não elimina os riscos de fragmentação, mas torna o sistema muito mais complexo do que o modelo afegão de 2021.

7 meses de guerra! Trump rejeita proposta de paz do Irã, mas negociações indiretas devem recomeçar

Hoje, 28 de setembro, a guerra entre Estados Unidos e Irã completa sete meses. No mesmo momento em que o conflito chega a essa marca, Washington e Teerã voltam a movimentar canais diplomáticos por meio de mediadores, numa tentativa de encontrar uma saída para a crise.

Os Estados Unidos e o Irã voltaram a movimentar os canais diplomáticos em uma tentativa de encontrar uma saída para o conflito que envolve os dois países.

Segundo uma autoridade familiarizada com as negociações ouvida pela Reuters, mediadores do Catar devem realizar conversas separadas com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, e com representantes norte-americanos nesta segunda ou terça-feira, em Nova York.

As reuniões não serão, neste momento, uma negociação direta entre Washington e Teerã. A ideia é que o Catar funcione como intermediário, levando propostas de um lado ao outro e tentando aproximar posições que continuam bastante distantes.

O movimento ocorre pouco depois de o Irã apresentar uma proposta de sete dias para interromper as hostilidades. Agora, segundo a autoridade ouvida pela Reuters, os mediadores trabalham sobre uma versão modificada desse plano, apresentada durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

A proposta iraniana rejeitada

A proposta iraniana prevê uma série de medidas que precisariam acontecer de forma coordenada.

Entre elas estão o fim das hostilidades no Irã e no Líbano, o desbloqueio de bilhões de dólares em ativos iranianos, a suspensão das sanções contra o petróleo do país e o fim do bloqueio norte-americano aos portos iranianos.

Em contrapartida, Teerã se comprometeria a permitir a reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais passagens marítimas para o transporte mundial de petróleo, além de retomar as negociações sobre seu programa nuclear.

É justamente essa ligação entre segurança, petróleo e programa nuclear que torna as negociações particularmente complexas.

Trump rejeitou a primeira proposta, mas manteve o canal aberto

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no sábado que havia rejeitado a proposta iraniana. Segundo Trump, Teerã estaria buscando um acordo rápido devido à forte pressão econômica enfrentada pelo país.

Apesar disso, no domingo, Trump afirmou ao Axios que esperava que representantes norte-americanos participassem de novas conversas durante esta semana.

A posição cria uma situação aparentemente contraditória: Washington rejeitou a proposta apresentada inicialmente por Teerã, mas continua permitindo que o processo diplomático avance por meio de intermediários.

O que pode acontecer agora

O principal ponto de atenção será saber se os mediadores conseguem transformar a proposta iraniana em uma fórmula que também seja aceitável para Washington.

Para isso, questões como sanções econômicas, bloqueio de portos, circulação pelo Estreito de Ormuz, suspensão das hostilidades e o futuro do programa nuclear iraniano precisarão ser tratadas conjuntamente.

Por enquanto, portanto, não há confirmação de um cessar-fogo definitivo ou de um acordo de paz.