Um dos aviões mais famosos da história da aviação militar voltou ao centro das atenções nos Estados Unidos. Um SR-71 Blackbird que permanecia em exposição no Armstrong Flight Research Center, em Edwards, Califórnia, desapareceu do local onde estava há anos, justamente em um momento em que a NASA vem sinalizando uma nova geração de aeronaves experimentais capazes de voar cada vez mais alto e rápido.
O caso ganhou repercussão porque o avião desaparecido é o SR-71A de matrícula NASA 844, uma aeronave que teve uma longa relação com os programas de testes da agência. Até agora, porém, a NASA não confirmou que o avião esteja sendo preparado para voltar a voar ou o seu paradeiro misterioso.
A NASA afirmou que continua explorando maneiras de ampliar sua frota de aeronaves experimentais e que pretende voltar a operar aeronaves capazes de atingir desempenhos elevados. A agência, entretanto, disse não ter informações adicionais sobre o destino do SR-71.
A coincidência chamou atenção porque o administrador da NASA, Jared Isaacman, apresentou recentemente uma imagem de uma aeronave experimental com aparência semelhante à do Blackbird enquanto falava sobre os futuros programas de testes da agência. Quando questionado se a imagem mostrava um Blackbird, Isaacman respondeu de maneira enigmática, sem confirmar a identidade da aeronave.
Isso alimentou especulações sobre a possibilidade de o histórico SR-71 estar sendo aproveitado em algum novo projeto. Mas, até o momento, não há confirmação pública de que o SR-71 desaparecido esteja sendo restaurado para voltar ao serviço.
O que torna o SR-71 tão especial?
O Lockheed SR-71 Blackbird foi concebido durante a Guerra Fria para uma missão extremamente específica: obter informações sobre áreas estratégicas sem depender de combate direto.
Ele podia voar a mais de Mach 3, ou seja, mais de três vezes a velocidade do som, e operar acima de 80 mil pés — aproximadamente 24 quilômetros de altitude.
Na prática, isso significava que o avião podia passar por uma região em alta velocidade e altitude enquanto seus sensores registravam informações sobre o território abaixo.
O próprio desenho da aeronave foi pensado para esse ambiente extremo. O avião utilizava grande quantidade de titânio e suas ligas, materiais capazes de suportar as temperaturas provocadas pelo voo sustentado em velocidades superiores a Mach 3.
Em 1976, um SR-71 estabeleceu marcas de 3.529 km/h e altitude de 85.069 pés, aproximadamente 25,9 km, em sua categoria.
Outro detalhe curioso: o SR-71 não carregava armamento. Sua principal defesa era a combinação de altitude, velocidade e capacidade de detectar ameaças. Segundo a Força Aérea dos EUA, diante de um lançamento de míssil terra-ar, uma das respostas previstas era simplesmente acelerar e sair da área de ameaça.
A história do avião
O SR-71 nasceu de uma família de aeronaves secretas desenvolvidas pela divisão Skunk Works, da Lockheed, sob liderança do engenheiro Clarence “Kelly” Johnson.
O projeto surgiu a partir da necessidade americana de substituir o U-2 por uma aeronave capaz de realizar reconhecimento em condições ainda mais extremas.
O primeiro voo do SR-71 ocorreu em 22 de dezembro de 1964. O primeiro avião entrou em serviço operacional em janeiro de 1966, sendo entregue à unidade de reconhecimento estratégico da Força Aérea em Beale, Califórnia.

O desenvolvimento fazia parte de uma família maior de aeronaves conhecida como Blackbirds. Entre elas estavam:
A-12 — aeronave de reconhecimento operada pela CIA;
YF-12A — versão concebida como interceptador;
M-21 — aeronave utilizada como plataforma para o drone D-21;
SR-71 — versão de reconhecimento estratégico operada pela Força Aérea.
O SR-71 permaneceu operacional durante décadas. A Força Aérea encerrou sua operação em 1990, em meio à redução do orçamento de defesa e aos elevados custos de operação. Algumas aeronaves chegaram a ser reativadas em 1995, mas foram novamente retiradas de serviço em 1997.
A missão mais sensíveis
Aqui está uma das partes mais interessantes da história do Blackbird. O avião não era um caça convencional. Sua missão principal era reconhecimento estratégico.
Isso significa que, em vez de atacar um alvo, ele tinha como objetivo observar e registrar informações. Para isso, carregava câmeras e outros sensores capazes de produzir imagens e coletar informações sobre grandes áreas.
Segundo a Força Aérea americana, o SR-71 podia, a partir de aproximadamente 80 mil pés, examinar cerca de 100 mil milhas quadradas da superfície terrestre por hora.
Guerra do Vietnã
O Blackbird foi empregado extensivamente no Sudeste Asiático. Uma de suas funções era fotografar posições e movimentações militares. As imagens obtidas pelo avião eram utilizadas para produzir informações sobre as forças adversárias.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 1970, quando imagens produzidas pelo SR-71 contribuíram para o planejamento da operação americana contra o campo de prisioneiros de Son Tay, no Vietnã do Norte.
O avião também realizou missões em outros ambientes estratégicos durante a Guerra Fria, fazendo do Blackbird uma das principais plataformas americanas de reconhecimento aéreo de sua época.
Como o SR-71 funciona?
O segredo do Blackbird estava na combinação de velocidade, altitude, sensores e engenharia térmica.
Os dois motores Pratt & Whitney J58 produziam aproximadamente 32.500 libras de empuxo cada, utilizando pós-combustão. O avião podia superar Mach 3 e alcançar mais de 85 mil pés.
Mas voar tão rápido provocava um problema enorme: o calor. A velocidades superiores a Mach 3, o atrito e a compressão do ar elevavam drasticamente a temperatura da estrutura.
Por isso, o avião foi construído predominantemente com titânio. E existe outra peculiaridade famosa.
O SR-71 foi projetado para que determinadas partes da estrutura apresentassem folgas quando o avião estivesse no solo. Durante o voo em alta velocidade, o aquecimento fazia os componentes se expandirem, contribuindo para a vedação adequada da aeronave.
Ou seja, algumas características que pareciam defeitos no chão eram parte do projeto para o voo em Mach 3.
O mistério!
A Aviation Week informou que o SR-71A foi retirado da exposição pública meses antes de o administrador da NASA fazer seus comentários sobre a nova geração de aeronaves experimentais.

Depois, a ausência do avião chamou ainda mais atenção porque Isaacman apresentou uma imagem de uma aeronave de aparência semelhante ao Blackbird ao falar sobre os futuros X-planes da NASA.
Isso abriu algumas possibilidades discutidas publicamente:
-
- o avião pode estar passando por algum trabalho de conservação ou manutenção;
- pode estar sendo transferido para outro local;
- sua estrutura pode estar sendo utilizada para pesquisa;
- a NASA pode estar estudando tecnologias relacionadas ao legado do Blackbird;
- ou pode existir algum projeto mais amplo relacionado à nova geração de aeronaves experimentais.
Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada pela NASA como sendo o motivo da retirada do 844.
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