As eleições em Israel terminaram sem que nenhum dos principais blocos políticos conseguisse conquistar a maioria necessária para formar um novo governo. O resultado abriu uma disputa política que pode se prolongar por semanas ou até meses e colocou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diante de um dos maiores desafios de sua trajetória política.
Apesar de seu partido, o Likud, ter conquistado o maior número de cadeiras individualmente, o bloco de direita liderado por Netanyahu perdeu a maioria parlamentar. Agora, o futuro do governo dependerá de negociações entre partidos com posições ideológicas profundamente diferentes, incluindo legendas árabes que podem se tornar decisivas para definir quem comandará o país.
O Parlamento israelense, conhecido como Knesset, possui 120 cadeiras. Para governar, um primeiro-ministro precisa reunir o apoio de pelo menos 61 parlamentares. Entretanto, os resultados deixaram o bloco de Netanyahu com 53 assentos, enquanto as forças oposicionistas lideradas por Gadi Eisenkot conquistaram 48. Os partidos árabes, por sua vez, somaram outros 19 representantes.
Embora a oposição tenha conseguido superar numericamente o bloco governista quando considerados também os partidos árabes, isso não significa que exista uma coalizão pronta para assumir o poder. As divergências entre as legendas são profundas, especialmente em relação à participação dos partidos árabes em um eventual governo.
Diante desse cenário, existem quatro caminhos principais para tentar solucionar o impasse político israelense.
1. A oposição forma um governo com apoio dos partidos árabes
A primeira possibilidade seria a formação de um governo liderado por Gadi Eisenkot, principal adversário de Netanyahu, com o apoio dos partidos árabes representados no Parlamento.
Na prática, essa alternativa permitiria reunir diferentes forças políticas interessadas em encerrar o atual ciclo de governo do Likud.
O bloco de Eisenkot possui 48 parlamentares. Com o apoio dos 19 representantes dos partidos árabes, seria possível alcançar 67 cadeiras, número suficiente para garantir uma maioria parlamentar.
Entretanto, existe um obstáculo político considerável.
Parte das lideranças oposicionistas, especialmente Naftali Bennett e Avigdor Liberman, já demonstrou resistência a qualquer governo que dependa do apoio dos partidos árabes, seja com participação direta no gabinete ou mediante sustentação parlamentar externa.
A situação também representa um desafio para o próprio Eisenkot, que durante a campanha eleitoral assumiu compromissos contrários a uma aliança dessa natureza.
O precedente mais próximo aconteceu em 2021, quando o partido árabe Ra’am participou de uma coalizão de oito partidos que conseguiu retirar Netanyahu do poder. Entretanto, aquela administração não resistiu às divergências internas e acabou desmoronando aproximadamente 18 meses depois.
Portanto, embora matematicamente seja uma das alternativas mais viáveis, politicamente essa possibilidade pode provocar uma divisão dentro da própria oposição.
2. Um governo de unidade nacional
A segunda alternativa seria uma solução negociada entre os principais adversários políticos, com a formação de um governo de unidade nacional.
Nesse cenário, o Likud, de Netanyahu, poderia dividir o poder com partidos de centro e de direita que atualmente integram a oposição.
Uma composição envolvendo o Likud, o Yashar, de Eisenkot, o partido de Naftali Bennett e a legenda de Avigdor Liberman poderia reunir aproximadamente 66 parlamentares, garantindo uma maioria no Knesset.
A vantagem seria evitar uma nova eleição e estabelecer uma administração com sustentação parlamentar suficiente para governar.
Entretanto, o acordo exigiria concessões políticas bastante significativas.
Netanyahu teria de rever sua relação com alguns dos atuais aliados da direita radical e com os partidos ultraortodoxos, que representam uma parte importante de sua sustentação política.
Do outro lado, Eisenkot enfrentaria uma forte resistência de eleitores que votaram na oposição justamente com o objetivo de retirar Netanyahu do cargo.
O líder do Yashar já descartou publicamente integrar um governo comandado pelo atual primeiro-ministro.
Ainda assim, diante de um impasse prolongado, a pressão econômica, a situação de segurança e a necessidade de estabilidade poderiam transformar essa alternativa em uma saída negociável.
3. Netanyahu tenta recuperar a maioria atraindo parlamentares da oposição
A terceira possibilidade envolve uma estratégia política que Netanyahu já conhece: conquistar apoio individual de parlamentares pertencentes a partidos adversários.
Com 53 cadeiras, seu bloco está oito assentos abaixo da maioria necessária para governar.
Uma eventual aproximação com deputados da oposição poderia permitir que o primeiro-ministro reconstruísse sua base parlamentar sem precisar conquistar o apoio de um partido inteiro.
O problema é que os principais líderes oposicionistas já declararam que não pretendem integrar um governo liderado por Netanyahu.
Gadi Eisenkot, Naftali Bennett, Avigdor Liberman e Yair Golan representam diferentes correntes políticas, mas compartilham a oposição à continuidade de Netanyahu no comando do país.
Além disso, convencer oito parlamentares a romperem com suas próprias legendas seria uma operação política extremamente difícil.
Apesar disso, Netanyahu é considerado um dos políticos mais experientes de Israel na construção de alianças parlamentares. Ao longo de sua carreira, demonstrou capacidade de negociar com diferentes setores políticos e explorar divergências entre seus adversários.
Se conseguir provocar divisões na oposição, poderá encontrar uma maneira de permanecer no poder.
4. Novas eleições: Israel volta às urnas
A quarta possibilidade é também aquela que pode prolongar ainda mais a instabilidade política: a realização de novas eleições.
Caso nenhuma das alternativas anteriores consiga produzir uma maioria parlamentar, Israel poderá ser obrigado a convocar novamente os eleitores.
O processo começa com o presidente israelense, Isaac Herzog, que deverá realizar consultas com os partidos eleitos para identificar qual liderança possui melhores condições de formar um governo.
Depois das consultas, Herzog indicará um candidato para tentar construir uma coalizão.
O primeiro indicado terá 28 dias para negociar e apresentar uma composição governamental, podendo receber uma extensão de até 14 dias.
Se fracassar, outro candidato poderá receber a oportunidade de formar uma administração, também com um prazo de quatro semanas. Caso essa tentativa não funcione, o Parlamento ainda poderá indicar uma terceira alternativa, que terá um período adicional de 14 dias.
Se todas as possibilidades forem esgotadas sem um acordo, o país poderá ser encaminhado para uma nova eleição.
Nesse intervalo, Netanyahu continuará exercendo a função de primeiro-ministro interino, mesmo sem ter conseguido assegurar uma nova maioria parlamentar.
Uma nova votação poderia acontecer apenas no próximo ano, prolongando a incerteza sobre o futuro político de Israel.
O futuro de Netanyahu no poder
O resultado eleitoral representa um momento particularmente delicado para Benjamin Netanyahu.
Mesmo sem conquistar uma maioria, seu partido continua sendo a maior força política individual do Parlamento. Isso significa que o primeiro-ministro ainda possui influência suficiente para participar diretamente das negociações e dificultar a construção de uma administração alternativa.
Entretanto, a possibilidade de uma coalizão oposicionista apoiada pelos partidos árabes representa uma ameaça concreta à sua permanência no cargo.
Outro elemento importante é a fragmentação da oposição. Embora exista uma maioria numérica contrária ao atual governo quando considerados todos os parlamentares, isso não significa que essas forças estejam dispostas a compartilhar o poder.
O resultado também evidencia a importância crescente dos partidos árabes na política israelense. Com 19 cadeiras, essas legendas podem desempenhar um papel decisivo na definição da próxima administração.
O presidente Isaac Herzog terá uma função importante nesse processo, mas não poderá simplesmente impor um governo. A decisão dependerá da capacidade dos partidos de construir acordos e garantir apoio parlamentar.
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