Mercenários americanos e milhares de vítimas no Haiti: Drones contra gangues

O Haiti recorreu à empresa privada de segurança do empresário americano Erik Prince para reforçar o combate às organizações criminosas que dominam partes do país. Com drones de ataque, helicópteros e ex-integrantes de forças especiais, a operação busca recuperar territórios controlados por gangues.

Mas, enquanto as forças de segurança tentam avançar, mortes de civis, custos milionários e dúvidas sobre a eficácia da estratégia levantam questionamentos sobre o papel de militares privados, também conhecidos como mercenários, em um país mergulhado na violência.

Uma operação privada em meio ao colapso da segurança

A atuação de Prince no Haiti representa uma tentativa de responder a uma crise que as autoridades locais e diversas missões internacionais não conseguiram resolver. Sua empresa, a Vectus Global, trabalha em apoio às forças haitianas em operações contra grupos armados, utilizando equipamentos e profissionais especializados.

Prince é um ex-integrante da Marinha dos Estados Unidos e ficou conhecido internacionalmente por fundar a Blackwater, empresa envolvida em um dos episódios mais controversos da atuação de contratados militares americanos no Iraque. Em 2007, funcionários da Blackwater mataram 17 civis iraquianos em Bagdá. Quatro contratados foram condenados nos Estados Unidos e posteriormente receberam perdões presidenciais de Donald Trump, em 2020.

Agora, o empresário apresenta uma proposta semelhante em sua essência, o emprego de forças privadas em conflitos complexos, mas adaptada ao combate às gangues haitianas. A diferença está no uso intensivo de drones, apoio aéreo e ações coordenadas com unidades especializadas da polícia local.

Drones transformam o combate contra as gangues

Um dos elementos centrais da estratégia é o emprego de drones capazes de transportar explosivos e atingir alvos identificados pelas equipes de segurança. Diferentemente de aeronaves convencionais, esses equipamentos podem ser relativamente baratos, difíceis de detectar e utilizados sem colocar um piloto diretamente em risco.

Foto: Serviços de Distribuição de Informação Visual de Defesa dos EUA

Segundo informações de fontes ligadas à força-tarefa relataram mais de 2 mil ataques com drones contra diferentes alvos desde o início das operações, em março de 2025. A empresa afirma que o apoio tecnológico permite responder mais rapidamente às emboscadas e reduz a desvantagem das forças policiais diante de grupos fortemente armados.

Na prática, os drones podem auxiliar na vigilância de bairros, na identificação de posições inimigas e em ataques contra instalações utilizadas pelas gangues. Helicópteros também são empregados para transportar equipes policiais a regiões montanhosas e de difícil acesso.

O problema é que a mesma tecnologia que amplia a capacidade de combate também aumenta os riscos para quem vive nas áreas atingidas. Em bairros densamente povoados, distinguir integrantes de organizações criminosas de moradores comuns pode ser extremamente difícil, sobretudo quando as informações sobre os alvos são incompletas.

Mortes de civis levantam dúvidas sobre a estratégia

O emprego de drones armados é um dos aspectos mais preocupantes da operação. Um levantamento da organização Human Rights Watch divulgado em março de 2026 apontou que ataques realizados por forças haitianas e contratados privados mataram 1.243 pessoas entre março de 2025 e janeiro de 2026.

Desse total, a entidade identificou pelo menos 60 vítimas civis, 43 adultos e 17 crianças, e registrou outras 738 pessoas feridas. Os números abrangem operações de segurança mais amplas, não exclusivamente ataques atribuídos à equipe de Prince.

Um dos episódios mais graves envolveu um ataque com drone em uma área residencial de Porto Príncipe, durante uma comemoração de aniversário associada a um líder de gangue. Crianças estavam entre os mortos. O caso ilustra o risco de que uma operação destinada a atingir criminosos termine provocando vítimas entre pessoas sem participação nos confrontos.

A discussão vai além da precisão dos equipamentos. Também envolve a legalidade dos ataques, os critérios usados para selecionar alvos e a existência de investigações independentes quando civis são mortos.

Relatórios da Organização das Nações Unidas levantaram preocupações sobre operações que podem se aproximar de execuções extrajudiciais, especialmente quando o objetivo deveria ser prender suspeitos e submetê-los à Justiça. Isso não significa que todo ataque seja ilegal, mas reforça a necessidade de avaliar cada operação à luz do direito aplicável.

O avanço militar ainda não significa vitória

Em algumas regiões próximas à capital, as operações conseguiram pressionar grupos armados e permitir que policiais voltassem a ocupar áreas antes dominadas por criminosos. A reportagem da CNN acompanhou uma ofensiva na região de Kenscoff, onde forças policiais avançaram por comunidades que haviam sido tomadas pelas gangues.

Moradores demonstraram alívio ao ver barricadas criminosas sendo removidas e ruas novamente acessíveis. Entretanto, a retomada de um território não garante que ele permanecerá seguro. Sem uma presença policial permanente, serviços públicos e condições para que a população retome sua rotina, as gangues podem voltar a ocupar as mesmas áreas.

Esse é um dos principais desafios do Haiti: transformar ganhos militares localizados em segurança duradoura.

A dimensão da crise ajuda a explicar a urgência. Gangues armadas controlam amplas partes de Porto Príncipe, enquanto sequestros, extorsões, assassinatos e deslocamentos forçados continuam afetando a população. Mais de 1,5 milhão de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, segundo estimativas divulgadas em outubro de 2026.

Quanto custa contratar uma força privada?

Outro ponto controverso é o custo da operação. Prince não revelou o valor anual exato recebido por sua empresa, mas indicou que a estrutura seria mais barata do que a missão internacional que atuou anteriormente no país. A CNN descreveu o contrato como potencialmente avaliado em dezenas de milhões de dólares.

Além disso, existe um acordo relacionado ao controle de passagens fronteiriças e à arrecadação alfandegária. Segundo a reportagem, Prince poderá receber 10% da receita aduaneira adicional obtida com a redução do contrabando em determinados pontos da fronteira com a República Dominicana. O acordo tem duração prevista de dez anos e levanta questionamentos sobre a fiscalização de contratos de longo prazo firmados por um governo de transição.

A questão central é saber quais resultados serão exigidos em troca desse dinheiro e como serão fiscalizados. Uma empresa privada pode oferecer equipamentos, rapidez operacional e experiência militar, mas isso não elimina a obrigação do Estado de proteger os cidadãos e garantir que as operações respeitem a lei.

O modelo de combate de Erik Prince sendo exportado

A estratégia no Haiti faz parte de uma discussão mais ampla sobre o papel das empresas militares privadas em países onde as forças estatais perderam capacidade de controlar o território.

Seus defensores argumentam que essas empresas podem atuar com estruturas menores, equipamentos modernos e processos decisórios mais rápidos do que grandes missões internacionais. No caso haitiano, o apoio aéreo e os drones podem oferecer à polícia recursos que ela não teria condições de desenvolver sozinha em pouco tempo.

Os críticos, por outro lado, alertam que operações terceirizadas podem dificultar a responsabilização por abusos, especialmente quando há pouca transparência sobre contratos, cadeias de comando e investigações de mortes de civis.

A experiência anterior da Blackwater no Iraque também torna o histórico de Prince um fator relevante para o debate. Ainda assim, o desempenho da Vectus Global precisa ser avaliado com base em suas próprias operações, nos resultados alcançados e nos mecanismos de controle existentes.

Forças dos EUA deixam o Iraque após 20 anos: o país está preparado para ficar sem tropas americanas?

As últimas forças militares dos Estados Unidos estão deixando o Iraque, encerrando uma presença que começou com a invasão de 2003 e atravessou mais de duas décadas de guerras, ocupação, combate ao terrorismo e disputas de influência no Oriente Médio.

A retirada deve ser concluída até 30 de setembro e ocorre em um momento particularmente sensível: os Estados Unidos estão em conflito com o Irã, enquanto grupos armados ligados a Teerã possuem forte influência dentro do território iraquiano.

Será um novo Afeganistão?

Em 20021, os Estados Unidos encerram uma presença militar que durou muitos anos no Afeganistão e transferiram para as forças locais a responsabilidade pela segurança do país.

O principal risco, agora, está na possibilidade de surgir um vácuo de poder que seja aproveitado por grupos armados ou organizações extremistas no Iraque.

No entanto, existe uma diferença importante. O Iraque de 2026 não é o Afeganistão de 2021. O país possui forças armadas próprias, instituições políticas estabelecidas e uma estrutura de segurança que foi construída e treinada durante anos.

Além disso, o Estado Islâmico e milícias islâmicas não controlam atualmente grandes áreas do território iraquiano como o Talibã controlava partes significativas do Afeganistão antes da retirada americana. Portanto, não existe, neste momento, uma indicação de que esteja ocorrendo uma repetição direta do cenário que levou à queda de Cabul.

Porém, o Irã tem a ganhar estrategicamente com a saída da coalizão, pois isso elimina uma presença militar que, durante anos, serviu de contrapeso à influência de Teerã no Iraque.

De acordo com especialistas no assunto, os grupos de milícias islâmicas xiitas pró-Irã não só retratariam a saída como uma vitória para o seu movimento, mas também “procurariam traduzir esse ímpeto em maior influência sobre a segurança e a tomada de decisões políticas”.

Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, um grupo que engloba facções armadas apoiadas pelo Irã, descreveu a retirada dos EUA como “uma vitória histórica para os grupos de resistência islâmica iraquianos e para os iraquianos honrados, e uma derrota esmagadora para o projeto americano”.

A saída representa uma mudança importante no equilíbrio de poder dentro do Iraque. Para o Irã e suas milícias aliadas, a retirada americana é apresentada como uma vitória.

Para setores da sociedade e das forças de segurança iraquianas, porém, existe o temor de que a ausência dos Estados Unidos reduza a capacidade de conter grupos armados e facilite uma eventual reorganização do Estado Islâmico.

Uma presença militar que começou em 2003

A história começou em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque para derrubar o governo de Saddam Hussein. A operação transformou completamente o país e deu início a anos de ocupação e combate contra grupos insurgentes.

As forças americanas deixaram o Iraque no final de 2011, mas retornaram menos de três anos depois. O motivo foi o avanço do Estado Islâmico, que havia conquistado grandes áreas do território iraquiano e sírio.

A partir de 2014, a missão americana passou a concentrar-se principalmente no apoio às forças iraquianas na luta contra o grupo extremista. O Estado Islâmico perdeu seu território e seu chamado califado foi derrotado militarmente, embora células clandestinas tenham permanecido ativas.

Durante esse período, cerca de 4.500 militares americanos morreram em operações relacionadas à guerra do Iraque ao longo de mais de duas décadas.

As forças de segurança que defenderão o Iraque

O sistema de segurança do Iraque é bastante fragmentado e reúne forças regulares do Estado, unidades de contraterrorismo, polícia, forças curdas e também grupos de mobilização tribal e milícias incorporadas formalmente à estrutura estatal.

Em termos simples, é possível imaginar o aparato de segurança iraquiano como várias camadas.

A principal é o Exército Iraquiano, subordinado ao Ministério da Defesa. É a força militar convencional responsável pela defesa do território e por operações contra grupos armados. Dentro dessa estrutura estão as forças terrestres, além de componentes como Força Aérea, aviação do Exército, Marinha e defesa aérea. O Exército é, portanto, uma instituição estatal regular, e não uma força tribal.

Depois existe o Ministério do Interior, que controla uma grande estrutura policial e paramilitar. Ela inclui a Polícia Federal, polícia provincial, forças de proteção de fronteiras, unidades de resposta a emergências e outras forças especializadas. A Polícia Federal, em particular, acabou adquirindo características bastante militarizadas depois dos anos de combate contra o Estado Islâmico.

Existe também o Serviço de Contraterrorismo do Iraque, conhecido como CTS. Essa é uma das forças mais importantes para operações especiais e combate ao terrorismo. Diferentemente do Exército e da Polícia Federal, o CTS responde diretamente ao primeiro-ministro iraquiano. Ele inclui unidades de operações especiais e foi criado justamente para enfrentar ameaças como a Al-Qaeda e, posteriormente, o Estado Islâmico.

E aí chegamos à parte mais complicada: as Forças de Mobilização Popular, conhecidas como PMF ou Hashd al-Shaabi. Elas foram criadas em 2014, quando o Estado Islâmico conquistou grandes áreas do Iraque. Depois da ofensiva do grupo contra Mosul e outras cidades, uma convocação religiosa do aiatolá Ali al-Sistani ajudou a mobilizar milhares de combatentes para enfrentar o Estado Islâmico.

Em 2016, o Parlamento iraquiano transformou a estrutura em uma formação militar oficialmente integrante das Forças Armadas e subordinada, em termos legais, ao comandante-em-chefe, o primeiro-ministro.

Mas aqui está a grande peculiaridade: as PMF não são um exército homogêneo. Elas funcionam como uma espécie de guarda-chuva que reúne dezenas de organizações armadas diferentes. A maioria é formada por árabes xiitas, mas também existem unidades sunitas, yazidis, cristãs e de outras minorias. Algumas dessas organizações possuem relações políticas próprias e algumas facções mantêm vínculos muito próximos com o Irã.

As Forças de Mobilização Tribal, ou Tribal Mobilisation/Hashd al-Asha’iri. Essas são diferentes das PMF xiitas tradicionais. Elas são compostas principalmente por combatentes de tribos árabes sunitas, especialmente em regiões que foram ocupadas pelo Estado Islâmico. Sua função historicamente foi combater o Estado Islâmico e depois ajudar a proteger as áreas reconquistadas.

O efeito Estado Islâmico x Fragilidade de segurança do Afeganistão em 2021

Depois do avanço do Estado Islâmico em 2014, o governo iraquiano precisava de uma estrutura capaz de mobilizar rapidamente milhares de combatentes. Surgiram ou foram ampliadas diversas forças de mobilização, incluindo grupos tribais e milícias.

Posteriormente, as Forças de Mobilização Popular (PMF/Hashd al-Shaabi) foram reconhecidas legalmente como parte das forças de segurança do Estado e colocadas formalmente sob autoridade do primeiro-ministro.

A diferença para o Afeganistão é significativa. O que ocorreu foi uma incorporação parcial e institucionalização de várias forças dentro do aparato estatal iraquiano, mantendo estruturas e cadeias de comando próprias em alguns casos.

Isso criou uma situação bastante peculiar: um combatente pode pertencer a uma organização que nasceu como milícia ou força local, mas estar oficialmente enquadrado dentro da estrutura de segurança do Estado iraquiano.

Isso é muito diferente do que ocorreu no Afeganistão. Ali, durante a retirada americana de 2021, o governo dependia principalmente das Forças de Segurança e Defesa Nacionais Afegãs (ANDSF), Exército, Força Aérea, polícia e unidades especiais. Quando o apoio americano desapareceu, essas estruturas começaram a entrar em colapso rapidamente em várias regiões, enquanto o Talibã avançava.

No Iraque, portanto, existe uma espécie de “redundância” de segurança. Se uma estrutura enfraquece, existem outras: Exército, contraterrorismo, polícia, PMF, forças tribais e Peshmerga. Isso não elimina os riscos de fragmentação, mas torna o sistema muito mais complexo do que o modelo afegão de 2021.