Impasse nas eleições de Israel mantém Netanyahu no poder como interino e abre disputa por alianças no Parlamento

Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deve permanecer como interino até a definição final das eleições. Foto: ©Área Militar/Reprodução
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As eleições parlamentares em Israel terminaram sem uma definição clara sobre quem conseguirá formar o próximo governo. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deve permanecer no cargo de maneira interina, enquanto os partidos negociam alianças para conquistar a maioria necessária no Parlamento. O resultado fortaleceu a posição do atual premiê, mas também revelou as dificuldades de seu bloco político para governar sem novos acordos.

Com mais de 90% dos votos apurados, projeções divulgadas pela imprensa israelense indicavam que a aliança de Netanyahu, formada por partidos de direita e ortodoxos, conquistaria 53 das 120 cadeiras do Knesset, como é chamado o Parlamento israelense. O bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, aparecia com 48 assentos.

Nenhum dos dois grupos alcançou os 61 parlamentares necessários para garantir uma maioria absoluta. Na prática, isso significa que a eleição não definiu quem terá condições de governar sozinho com o apoio de uma coalizão estável. O resultado abre caminho para semanas de negociações e possíveis mudanças nas alianças políticas.

Por que Netanyahu continua no cargo?

Em Israel, o sistema político é parlamentarista. Diferentemente do que ocorre no Brasil, o primeiro-ministro não é escolhido diretamente pelo voto popular para exercer um mandato presidencial. A composição do Parlamento e a capacidade de reunir apoio entre os partidos são fundamentais para definir quem governará o país.

Benjamin Netanyahu ainda resistente em anunciar o acordo oficial. Foto: U.S. Department of State

Enquanto um novo governo não é formado, Netanyahu permanece à frente do Executivo como primeiro-ministro interino. Isso não significa que tenha conquistado uma nova maioria eleitoral, mas que continua exercendo a função durante o processo de transição política.

O governo interino mantém formalmente suas atribuições, embora esteja sujeito a um dever de moderação e possa ter menos liberdade para tomar determinadas decisões. Essa condição ganha importância em um momento de tensão regional, no qual questões militares e de segurança nacional continuam no centro do debate político israelense.

A permanência de Netanyahu também demonstra a dificuldade de seus adversários em transformar a insatisfação com o governo em uma alternativa capaz de reunir apoio parlamentar suficiente.

Partidos árabes podem decidir o futuro do governo

Um dos principais fatores dessa disputa é o desempenho dos partidos que representam os árabes israelenses. As projeções indicavam que essas legendas poderiam conquistar, juntas, 19 cadeiras — um resultado expressivo, capaz de influenciar diretamente as negociações para a formação do próximo governo.

O bloco de Eisenkot teria dificuldades para alcançar a maioria sem algum tipo de apoio desses parlamentares. Somados aos 48 assentos projetados para a oposição, os 19 representantes dos partidos árabes poderiam formar uma maioria numérica de 67 cadeiras.

Entretanto, a matemática parlamentar não resolve, por si só, os obstáculos políticos. A possibilidade de depender do apoio dessas legendas enfrenta resistência entre setores da oposição, que reúne partidos com posições diferentes sobre segurança, política externa e a relação com a população árabe de Israel.

Esse cenário cria um dilema para Eisenkot: tentar construir uma maioria com o apoio de partidos árabes, mesmo sem necessariamente incluí-los no governo, ou buscar outros acordos que podem exigir concessões políticas significativas.

Netanyahu, por sua vez, ainda pode explorar divergências entre seus adversários para dificultar a formação de uma coalizão alternativa.

Segurança nacional continua no centro da disputa

Durante a campanha e após a divulgação das projeções eleitorais, Netanyahu destacou o desempenho militar de Israel e defendeu a formação de um governo de direita. O premiê também mencionou a possibilidade de uma nova ação militar conjunta contra o Irã com o apoio dos Estados Unidos, liderados por Donald Trump.

A aproximação entre os dois líderes acrescenta uma dimensão internacional às negociações internas. A continuidade da atual orientação de segurança de Israel interessa a Washington, especialmente diante das tensões com Teerã e de outros conflitos que afetam o Oriente Médio.

Trump manifestou apoio a Netanyahu durante a disputa eleitoral e avaliou positivamente seu desempenho. Esse respaldo político, porém, não substitui a necessidade de o primeiro-ministro reunir apoio suficiente dentro do Knesset.

Eisenkot, por outro lado, alertou para o risco de que questões de segurança sejam utilizadas com objetivos políticos durante o período de transição. A equipe de Netanyahu já havia rejeitado acusações de que o conflito com o Irã estaria sendo explorado para obter vantagens eleitorais.

A disputa, portanto, não se limita à escolha de nomes para comandar o governo. Ela também envolve o rumo da política de defesa israelense, a condução dos conflitos regionais e o grau de continuidade da atual estratégia de segurança.

Incerteza política pressiona os mercados

A ausência de uma maioria definida também provocou preocupação no mercado financeiro israelense. O shekel, moeda nacional, registrou desvalorização de aproximadamente 1,6%, enquanto os principais índices da Bolsa de Tel Aviv recuaram mais de 3%, segundo as informações divulgadas após a eleição.

A reação reflete a cautela dos investidores diante da possibilidade de um período prolongado de negociações, da dificuldade para estabelecer um governo estável e das incertezas relacionadas à segurança regional.

Embora oscilações nos mercados tenham diferentes causas, a indefinição política pode aumentar a percepção de risco, especialmente quando ocorre em um país diretamente envolvido em conflitos militares e disputas diplomáticas.

O que pode acontecer agora?

O próximo passo depende da conclusão da apuração e das negociações entre os partidos. O presidente israelense, Isaac Herzog, deverá consultar as forças políticas e indicar o candidato que considerar mais capaz de formar um governo.

Esse candidato precisará negociar o apoio necessário para construir uma coalizão parlamentar. Se a primeira tentativa fracassar, outros nomes poderão receber a oportunidade de buscar uma maioria, conforme os procedimentos políticos e legais israelenses.

Uma alternativa seria a formação de um governo de unidade nacional, reunindo partidos de diferentes campos políticos. Esse caminho, contudo, exigiria concessões difíceis, sobretudo porque parte da oposição fez da saída de Netanyahu uma de suas principais bandeiras.

Também existe a possibilidade de que o impasse não seja resolvido dentro do prazo previsto e o país precise realizar novas eleições.

Por enquanto, Netanyahu permanece em uma posição politicamente relevante: seu bloco não alcançou a maioria, mas a oposição tampouco demonstrou que consegue reunir apoio suficiente para substituí-lo. O futuro do governo dependerá menos da vitória isolada de um partido e mais da capacidade de cada campo político de transformar seus assentos parlamentares em uma aliança viável.


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