A aproximação entre o comando militar americano e a Agência Central de Inteligência (CIA) amplia as preocupações sobre os próximos passos do governo Donald Trump em relação a Cuba. Declarações do chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis Donovan, e do secretário de Estado, Marco Rubio, incentivam cubanos insatisfeitos com o regime a buscar mudanças políticas, enquanto Washington mantém a pressão econômica e alimenta especulações sobre uma possível ação militar.
Comandante militar dos EUA envia mensagem direta aos cubanos
O general Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), publicou em 24 de outubro uma mensagem nas redes sociais convocando os cubanos a aproveitar o momento para transformar o futuro do país. A declaração foi divulgada após o militar compartilhar uma manifestação da CIA que incentivava a cooperação com a agência de inteligência americana.
Donovan afirmou que o futuro de Cuba pertence àqueles que tomarem a iniciativa e defendeu que a população aproveite a oportunidade para promover mudanças. Na publicação, também criticou promessas não cumpridas, corrupção e privilégios de uma elite política que, segundo ele, estaria distante das dificuldades enfrentadas pelos cidadãos comuns.
A declaração chama a atenção porque não partiu apenas de um representante diplomático. Donovan comanda uma estrutura militar responsável pelas operações e pelo planejamento estratégico dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe. Sua manifestação pública reforça a percepção de que Cuba passou a ocupar uma posição importante na agenda de Washington para o Hemisfério Ocidental.
Marco Rubio incentiva cooperação discreta com a CIA
Dias antes da manifestação de Donovan, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, havia publicado uma mensagem semelhante. Ele se dirigiu aos cubanos que desejam mudanças políticas e sugeriu que estabelecessem uma parceria discreta com a CIA para contribuir com essa transformação.
A referência à cooperação reservada com a agência de inteligência é um dos aspectos mais relevantes do episódio. A CIA é responsável por atividades de inteligência no exterior, incluindo a coleta de informações e operações secretas autorizadas pelo governo americano. O apelo de Rubio vai além de uma declaração convencional de apoio à oposição cubana e sinaliza interesse em estabelecer canais de colaboração com pessoas que possam contribuir para os objetivos de Washington.
Entretanto, as declarações públicas não esclarecem quais atividades específicas estão sendo propostas, quem participaria delas ou se existe uma operação concreta em andamento. A combinação das mensagens de Rubio e Donovan sugere uma atuação coordenada na comunicação política americana, mas não comprova a existência de um plano operacional para derrubar o governo cubano.
Trump aumenta a pressão e mantém a opção militar no horizonte
A ofensiva política ocorre em meio ao endurecimento da estratégia do presidente Donald Trump contra Havana. A pressão americana inclui medidas econômicas relacionadas ao fornecimento de petróleo e demonstrações de força militar no Caribe.
A crise energética cubana é um dos principais fatores de preocupação. A escassez de combustível contribui para apagões que afetam residências, hospitais e outros serviços essenciais. A falta de energia também prejudica o abastecimento de água, o funcionamento de equipamentos médicos e a atividade econômica. O cenário aumenta a pressão sobre o governo cubano, mas impõe custos diretos à população.
Trump voltou a fazer declarações que alimentam especulações sobre uma possível operação contra a ilha. Durante um comício na Flórida, em 23 de outubro, o presidente sugeriu que navios americanos que retornassem da guerra contra o Irã poderiam passar pela costa cubana. Em tom provocativo, mencionou a possibilidade de uma embarcação parar perto da ilha e afirmou que Marco Rubio seria enviado para concluir o que chamou de acordo.
Apesar da retórica, não há confirmação pública de que Trump tenha autorizado um ataque ou estabelecido uma data para uma eventual intervenção militar em Cuba. As declarações indicam aumento da pressão, mas não constituem, por si só, prova de que uma operação esteja prestes a começar.
Pentágono avalia possibilidades militares
A preocupação com uma possível escalada não se limita às declarações políticas. Segundo informações anteriormente divulgadas pela CBS News e citadas pela imprensa especializada em defesa, o Pentágono teria examinado opções de ataque contra Cuba, incluindo a possibilidade de empregar forças da 101ª Divisão Aerotransportada do Exército americano.
A imprensa também informou que estruturas militares avaliavam sua capacidade de fornecer unidades de apoio para uma eventual missão na ilha. A existência dessas avaliações, porém, não significa que uma ordem de invasão tenha sido emitida. As forças armadas elaboram cenários e planos para diferentes contingências, inclusive aquelas que podem nunca ser executadas.
Mesmo com mudanças na composição do contingente naval concentrado no Caribe, os Estados Unidos mantêm capacidades militares na região. A presença de aeronaves, drones e unidades de fuzileiros navais amplia as opções disponíveis para Washington, mas não comprova que esses recursos estejam sendo mobilizados especificamente para atacar Cuba.
A experiência da Venezuela aumenta a preocupação em Havana
O episódio também é acompanhado à luz da atuação americana na Venezuela. Em janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos realizaram uma operação que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, levado para os Estados Unidos para responder a acusações judiciais.
A operação demonstrou a disposição do governo Trump de empregar força militar direta na região. Para Havana, a possibilidade de uma estratégia semelhante representa motivo de preocupação, especialmente diante do endurecimento das declarações americanas e das dificuldades econômicas enfrentadas pela ilha.
A pressão sobre Cuba também tem uma dimensão judicial e diplomática. Acusações americanas contra autoridades cubanas e manifestações públicas de integrantes do governo Trump contribuem para ampliar as tensões entre os dois países. Ainda assim, a situação venezuelana não permite concluir automaticamente que Washington repetirá a mesma estratégia em Cuba.
Em 26 de outubro, a Embaixada dos Estados Unidos em Havana informou que seu chefe de missão, Mike Hammer, havia se encontrado com Donovan. A publicação oficial indicou que os dois tinham assuntos relacionados a Cuba para discutir, mas não apresentou detalhes suficientes para estabelecer se a conversa envolveu preparativos militares.
A projeção futura para o cenário
O principal ponto de atenção é a convergência entre três frentes da política americana: pressão econômica, incentivo à mudança política dentro de Cuba e manutenção de opções militares no Caribe. A atuação simultânea de autoridades diplomáticas, inteligência e comando militar aumenta a pressão sobre o governo cubano e dificulta determinar até onde Washington pretende avançar.
Uma possibilidade é que a administração Trump tente ampliar o isolamento do regime e estimular divisões internas, buscando concessões políticas sem iniciar uma guerra. Outra é que a manutenção de alternativas militares funcione como instrumento de pressão nas negociações.
Uma intervenção direta, entretanto, teria riscos consideráveis, incluindo baixas militares e civis, desestabilização regional e aumento dos fluxos migratórios. Para os países latino-americanos, uma escalada poderia provocar reações diplomáticas, ampliar as tensões com Washington e alterar o equilíbrio de segurança no Caribe.
Por enquanto, o fato central é o endurecimento do discurso americano e o incentivo público à cooperação com a CIA. A existência de planos militares relatados pela imprensa merece atenção, mas não equivale à confirmação de uma decisão de ataque. O próximo sinal decisivo será verificar se Washington transforma a retórica em medidas operacionais concretas ou se utiliza a pressão para tentar forçar mudanças políticas em Havana.
