Trump chama ataques da Ucrânia contra a Rússia de “vergonha” e amplia crise com Zelenskiy

A guerra na Ucrânia ganhou um novo capítulo de tensão diplomática nesta sexta-feira (16), depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou como uma “vergonha” os ataques ucranianos contra refinarias de petróleo russas.

A declaração aumenta o atrito entre Washington e Kiev justamente quando o governo de Volodymyr Zelenskiy tenta garantir recursos militares e apoio internacional para continuar enfrentando as forças russas.

Enquanto Trump critica a estratégia militar ucraniana e demonstra preocupação com os efeitos das ofensivas sobre os preços internacionais da energia, líderes da União Europeia se mobilizam para reafirmar seu apoio a Zelenskiy. O encontro em Bruxelas ocorre em um momento delicado para Kiev, que enfrenta novos bombardeios russos, dificuldades financeiras e incertezas sobre o futuro da assistência americana.

Trump critica ataques contra refinarias russas

A declaração do presidente americano ocorreu após a Ucrânia voltar a atacar uma instalação de refino de petróleo em território russo. Esses complexos industriais são importantes porque transformam o petróleo bruto em combustíveis, como diesel e gasolina, além de contribuírem para a infraestrutura energética e econômica da Rússia.

Na avaliação de Trump, atingir essas instalações pode pressionar os preços dos combustíveis no mercado internacional. Em entrevista à emissora Newsmax, o presidente afirmou que os ataques estariam elevando o preço mundial do petróleo e classificou a estratégia ucraniana como uma “vergonha”.

A posição americana revela uma diferença importante sobre a maneira de conduzir o conflito. Para Kiev, atingir estruturas que sustentam a economia de guerra russa representa uma forma de aumentar o custo da invasão. Para Trump, porém, essas operações também precisam ser avaliadas pelos seus possíveis efeitos econômicos e pelas consequências para as negociações diplomáticas.

A divergência se torna ainda mais relevante porque os Estados Unidos continuam sendo um ator fundamental para a segurança ucraniana, especialmente em áreas como inteligência militar, armamentos e sistemas de defesa aérea.

Zelenskiy busca apoio europeu para enfrentar o inverno

Diante do aumento das divergências com Washington, Zelenskiy chegou à cúpula europeia em Bruxelas com uma prioridade clara: garantir que a Ucrânia tenha condições de continuar lutando durante os próximos meses.

O presidente ucraniano afirmou que, até o momento, não vê sinais de que Moscou esteja realmente disposta a encerrar a guerra. Por isso, segundo ele, o país precisa se preparar para um inverno que pode trazer novas dificuldades para a população e para as forças armadas.

A preocupação vai além do fornecimento de energia elétrica e do aquecimento das residências. Kiev também precisa de sistemas de defesa aérea para interceptar mísseis e drones russos, além de financiamento para manter o funcionamento do Estado e sustentar as operações militares.

Zelenskyy durante reunião na Cúpula europeia em Bruxelas. Foto: ©Área Militar/Reprodução

A situação é especialmente preocupante porque os ataques russos já provocaram novas vítimas e interrupções no fornecimento de eletricidade. Em Kharkiv, três pessoas morreram em ataques com drones, enquanto ofensivas em outras regiões deixaram centenas de milhares de pessoas sem energia.

Na prática, a Ucrânia enfrenta um problema duplo: precisa proteger suas cidades dos bombardeios russos ao mesmo tempo que tenta evitar uma redução no apoio dos países ocidentais.

A Europa tenta evitar que a Ucrânia fique isolada

Os líderes europeus aproveitaram a reunião para reafirmar o apoio a Zelenskiy, em meio ao receio de que os Estados Unidos reduzam o compartilhamento de informações de inteligência ou o fornecimento de armamentos.

A tensão também envolve a decisão americana de fechar um acordo de fornecimento de diesel com a Rússia, movimento que provocou insatisfação em Kiev e entre aliados europeus. A iniciativa contrasta com a estratégia de pressão econômica sobre Moscou defendida por governos europeus.

Entretanto, o apoio político não significa que todos os países estejam dispostos a assumir compromissos financeiros ilimitados. Durante as discussões, autoridades europeias demonstraram preocupação com os custos crescentes da guerra e com a necessidade de definir de onde virão os recursos para manter a Ucrânia em combate.

O primeiro-ministro da Estônia, Kristen Michal, avaliou que a União Europeia provavelmente precisará conceder um novo empréstimo a Kiev para ajudar a cobrir o déficit orçamentário previsto para o próximo ano.

O desafio europeu, portanto, é transformar declarações de solidariedade em dinheiro, equipamentos e capacidade militar efetiva, sem depender exclusivamente das decisões tomadas pela Casa Branca.

Crise financeira ameaça a capacidade militar ucraniana

Um dos principais obstáculos para o governo de Zelenskiy é a dimensão dos recursos necessários para sustentar a guerra.

Segundo os dados apresentados pela Reuters, a Ucrânia ainda enfrenta uma lacuna de financiamento de aproximadamente US$ 32,6 bilhões para o orçamento de 2027. Esse valor não inclui cerca de US$ 40 bilhões estimados em fornecimento militar direto por parte dos aliados.

Para entender a gravidade desses números, é importante distinguir duas necessidades: uma é financiar o funcionamento do país, incluindo serviços públicos e despesas governamentais; outra é obter armas, munições, drones e equipamentos necessários para enfrentar as forças russas.

Sem recursos suficientes, o governo ucraniano pode ter dificuldades para manter essas duas frentes simultaneamente.

Casa Branca teria ordenado restrições ao Starshield na Ucrânia, afetando operações com drones

Uma decisão tomada dentro da Casa Branca colocou em evidência uma das principais vulnerabilidades militares da Ucrânia: a dependência de tecnologias americanas para manter suas operações no campo de batalha.

De acordo com uma reportagem publicada pela Reuters em 15 de outubro, dois funcionários americanos e uma autoridade ocidental informada sobre o assunto afirmaram que a ordem para limitar o funcionamento do Starshield na Ucrânia partiu de dentro da Casa Branca.

A orientação teria sido transmitida a integrantes da liderança do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O objetivo era reduzir o funcionamento do serviço de comunicação por satélite utilizado pelas forças ucranianas. As fontes, entretanto, não identificaram quem tomou a decisão nem quem ficou responsável por executá-la.

A medida ganhou importância porque o sistema é utilizado para manter comunicações militares e auxiliar operações com drones, equipamentos fundamentais tanto para atacar posições russas quanto para interceptar ameaças aéreas.

A Casa Branca não confirmou a participação de outros integrantes do governo na determinação. Um alto funcionário americano declarou à Reuters que o presidente Donald Trump não havia solicitado a restrição.

Starshield: por que esse sistema é tão importante para a Ucrânia?

Para compreender o impacto da decisão, é necessário distinguir duas tecnologias relacionadas à empresa SpaceX: o Starlink e o Starshield.

O Starlink é conhecido por fornecer acesso à internet por meio de uma rede de satélites. Já o Starshield foi desenvolvido para atender a governos e clientes ligados à segurança nacional, incluindo o Departamento de Defesa americano. O sistema utiliza a infraestrutura de satélites do Starlink como base tecnológica.

Na guerra contra a Rússia, a comunicação por satélite permite que unidades militares mantenham contato mesmo em regiões onde as redes convencionais foram destruídas ou não estão disponíveis. Essa conectividade também pode ajudar a transmitir informações necessárias para operações com drones.

Quando um sistema desse tipo sofre limitações, os efeitos não se restringem à comunicação entre soldados. Eles podem atingir a coordenação de missões, a transmissão de dados e a capacidade de operar determinados equipamentos remotamente.

Segundo autoridades ucranianas ouvidas pela Reuters, as restrições dificultaram missões de ataque contra forças russas e estruturas logísticas em territórios ocupados. Também teriam reduzido a capacidade de utilização de drones interceptadores empregados contra os drones russos Shahed.

Drones ucranianos enfrentaram limitações de velocidade

Um dos aspectos mais relevantes do episódio envolve o funcionamento dos terminais de comunicação instalados em equipamentos que se deslocam rapidamente.

Autoridades ucranianas relataram que os receptores utilizados em configurações militares deixaram de funcionar adequadamente quando instalados em objetos em alta velocidade. Isso afetou drones que dependem desses equipamentos para seus sistemas de orientação.

Na quinta-feira, 15 de outubro, uma pessoa ligada ao Ministério da Defesa da Ucrânia informou que os receptores haviam voltado a funcionar em movimento, mas com uma limitação: velocidades de até 100 milhas por hora, o equivalente a aproximadamente 160 quilômetros por hora.

Essa restrição pode ser significativa para determinadas categorias de drones, especialmente aqueles que precisam manter conectividade durante deslocamentos rápidos.

É importante, porém, não interpretar o episódio como um desligamento total de toda a rede de satélites na Ucrânia. O relato trata de limitações específicas no funcionamento dos equipamentos e de seus efeitos sobre determinadas operações militares.

Trump pressiona Kiev a interromper ataques contra refinarias russas

A decisão surgiu em um momento de crescente tensão entre Washington e Kiev. Segundo a Reuters, Donald Trump vinha pressionando o governo de Volodymyr Zelensky a interromper os ataques ucranianos contra refinarias de petróleo russas.

O presidente americano atribuiu a esses ataques parte da responsabilidade pela elevação dos preços da energia, um problema politicamente sensível nos Estados Unidos antes das eleições legislativas de novembro.

Entretanto, especialistas citados pela agência apontaram outro fator importante para a alta dos custos energéticos: a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que teria provocado ataques iranianos a instalações de energia e afetado severamente o tráfego pelo Estreito de Ormuz.

Nesse contexto, a limitação do Starshield passou a ser observada não apenas como uma questão tecnológica, mas também como um possível instrumento de pressão sobre a estratégia militar ucraniana.

Ainda assim, a reportagem não estabelece de maneira conclusiva que a restrição tenha sido determinada especificamente para obrigar Kiev a interromper os ataques às refinarias. A coincidência temporal e o contexto diplomático levantam questionamentos, mas não comprovam, isoladamente, essa relação de causa e efeito.

Reunião em Miami aprofundou o desgaste entre os governos

A tensão entre os dois países também aumentou após uma reunião realizada em Miami, em 9 de outubro, com representantes americanos, ucranianos, europeus e do Banco Mundial.

Segundo uma fonte ouvida pela Reuters, Jared Kushner, genro de Trump, e Steve Witkoff, enviado do governo americano para o Oriente Médio, adotaram uma postura dura nas conversas com os representantes ucranianos. A delegação americana teria demonstrado insatisfação com a continuidade dos ataques contra refinarias russas, apesar dos pedidos de Washington para que fossem interrompidos.

Foto: Casa Branca

Outro ponto de atrito foi um acordo envolvendo o fornecimento de diesel russo aos mercados americano e internacional. O entendimento prevê o fornecimento de mais de 2,25 milhões de barris do combustível e, segundo a delegação americana, poderia contribuir para melhorar a disposição de Moscou em negociar a paz.

A iniciativa provocou críticas de parlamentares americanos, que temem que as receitas obtidas com a venda de combustível ajudem a financiar a continuidade da guerra russa sem exigir concessões significativas do presidente Vladimir Putin.

Nos dias seguintes, Trump e Zelensky trocaram críticas públicas. O presidente ucraniano classificou como fraca a decisão americana relacionada ao acordo com a Rússia, enquanto Trump defendeu a realização de eleições na Ucrânia e criticou a permanência de Zelensky no poder.