O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, decidiu retomar os ataques contra refinarias de petróleo da Rússia e elevou a tensão com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. A decisão foi anunciada depois que Kiev acusou Moscou de continuar bombardeando a infraestrutura energética ucraniana, apesar da trégua proposta por Washington.
Na madrugada desta quinta-feira (15), um ataque com drones atingiu uma refinaria na região russa de Riazan, provocando um incêndio, segundo autoridades locais.
A medida representa um novo capítulo na deterioração das relações entre Zelensky e Trump. O presidente americano vinha pressionando a Ucrânia a suspender os ataques contra instalações petrolíferas russas, em meio à preocupação com a alta dos preços dos combustíveis. Zelensky, porém, sustenta que não faz sentido interromper as operações ucranianas enquanto a Rússia continua atacando cidades, usinas elétricas e instalações de gás do país.
O impasse vai além de uma disputa sobre alvos militares. A crise envolve o futuro da ajuda americana, o compartilhamento de informações de inteligência e o acesso ucraniano a tecnologias essenciais para a guerra. Na prática, Kiev tenta manter sua capacidade de atingir pontos estratégicos da máquina de guerra russa enquanto enfrenta uma pressão crescente de seu principal aliado militar.
Trégua anunciada por Trump não conteve os ataques russos
A suspensão dos ataques contra instalações energéticas havia sido apresentada por Trump como uma tentativa de reduzir a escalada do conflito e aliviar a pressão sobre os mercados de combustíveis. O presidente americano atribuiu parte da alta dos preços do diesel aos ataques ucranianos contra refinarias russas e exigiu que Kiev interrompesse essas operações.
A Ucrânia chegou a suspender temporariamente os ataques a refinarias para atender ao pedido americano. Segundo Zelensky, entretanto, a Rússia continuou lançando mísseis e drones contra o território ucraniano, atingindo estruturas responsáveis pelo fornecimento de eletricidade e gás. Os bombardeios deixaram centenas de milhares de pessoas sem energia, segundo relatos divulgados durante o conflito.
Diante desse cenário, Zelensky declarou ao jornal Financial Times que a restrição aos ataques ucranianos havia terminado. A posição de Kiev é que uma trégua precisa ser respeitada pelos dois lados, e não apenas pela Ucrânia.
O Kremlin, por sua vez, afirmou que os ataques ucranianos contra instalações energéticas contrariam os esforços de paz liderados pelos Estados Unidos. Moscou também alegou que o alcance da trégua ainda não havia sido definido de maneira conclusiva.
Refinaria de Riazan entra novamente na mira da Ucrânia
A instalação atingida na região de Riazan pertence à estatal russa Rosneft e tem importância para o abastecimento de combustíveis. Segundo informações divulgadas pela Reuters, a refinaria responde por aproximadamente 5% da capacidade de processamento de petróleo das refinarias russas.
O governador regional, Pavel Malkov, informou que um ataque com drones provocou um incêndio no complexo industrial. As autoridades russas afirmaram que os danos estavam sendo avaliados e que equipes de emergência haviam sido mobilizadas.
A escolha desse tipo de alvo tem uma explicação estratégica. Uma refinaria transforma petróleo bruto em produtos como diesel, gasolina e combustível de aviação. Quando uma instalação desse porte é danificada, sua capacidade de produção pode ser reduzida, dificultando a distribuição de combustíveis e aumentando os custos de reparação e operação.
Para a Ucrânia, atacar refinarias é uma maneira de pressionar a economia russa e dificultar a logística de um país que mantém uma guerra de larga escala. Moscou, por sua vez, precisa proteger instalações que também têm importância para o abastecimento civil e para a economia nacional.
É importante ressaltar que um incêndio em uma refinaria não significa, automaticamente, que toda a instalação tenha sido destruída ou que seu funcionamento tenha sido interrompido por um período prolongado. A extensão dos danos em Riazan ainda estava sendo avaliada nas informações divulgadas nesta quinta-feira.
Zelensky acusa Washington de enfraquecer a defesa ucraniana
A retomada dos ataques ocorre em meio a uma disputa ainda mais delicada: a dependência da Ucrânia em relação à inteligência e às tecnologias militares americanas.
Zelensky afirmou que as forças ucranianas deixaram de receber determinados alertas antecipados sobre mísseis russos. Essas informações são importantes porque ajudam a identificar ameaças em aproximação e permitem que as defesas aéreas tentem interceptar projéteis antes que atinjam seus alvos.
O presidente ucraniano também criticou mudanças no funcionamento dos sistemas de comunicação por satélite utilizados por suas forças armadas. Segundo ele, limitações recentes prejudicaram operações com drones, incluindo missões de ataque e interceptação.
Zelensky disse que representantes militares americanos haviam alertado os ucranianos de que o compartilhamento de inteligência poderia ser bloqueado caso Kiev não interrompesse os ataques contra a infraestrutura energética russa. Posteriormente, segundo o relato ucraniano, a ausência dos alertas foi apresentada como uma falha técnica.
Trump negou que seu governo estivesse retendo informações de inteligência da Ucrânia. Portanto, embora a denúncia de Kiev aumente a tensão diplomática, não se deve tratar como comprovado que Washington tenha suspendido deliberadamente todo o compartilhamento de informações.
A controvérsia envolvendo Starlink e Starshield
Outro ponto de atrito envolve as redes de comunicação por satélite associadas à SpaceX, empresa de Elon Musk.
O Starlink é um serviço de internet por satélite utilizado também em operações militares ucranianas. Já o Starshield é uma iniciativa voltada a aplicações governamentais e de segurança nacional, com sistemas controlados pelo governo americano.
Zelensky afirmou que as limitações enfrentadas por equipamentos utilizados em drones não eram simplesmente um problema técnico, mas resultado de decisões sobre o uso do sistema. Musk, por sua vez, declarou que o Starshield pertence e é controlado pelo governo dos Estados Unidos, acrescentando que eventuais restrições de utilização são determinadas pelas autoridades americanas.
A diferença é importante: os relatos sobre limitações em equipamentos empregados nas operações militares não significam que toda a rede Starlink tenha sido desligada na Ucrânia. O problema relatado envolve funcionalidades específicas relevantes para determinados usos militares, especialmente drones em movimento.
Por que Trump quer interromper os ataques às refinarias russas?
A preocupação de Trump está relacionada, entre outros fatores, aos preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Os ataques às instalações petrolíferas russas podem prejudicar a produção e a distribuição de derivados de petróleo, embora o efeito efetivo sobre os preços internacionais dependa de diversos fatores, como oferta global, demanda, estoques e condições geopolíticas.
A questão ganhou importância adicional em meio à guerra envolvendo o Irã, iniciada em fevereiro de 2026, que também tem pressionado o mercado energético. Nesse contexto, Washington procura evitar novos fatores de instabilidade nos preços do diesel.
A posição americana, porém, coloca a Casa Branca diante de um dilema. Pressionar Kiev a interromper seus ataques pode ajudar a criar condições para uma negociação, mas também pode reduzir a capacidade ucraniana de atingir recursos estratégicos utilizados pela Rússia durante a guerra.
Zelensky criticou ainda a disposição do governo americano para realizar acordos comerciais com Moscou, argumentando que novas oportunidades econômicas poderiam beneficiar a Rússia enquanto o conflito continua. A decisão de Washington de suspender determinadas sanções relacionadas ao diesel russo também aumentou o descontentamento ucraniano.
Não se trata, portanto, apenas de uma divergência sobre uma trégua. Kiev questiona se os interesses econômicos e políticos americanos estão sendo colocados acima das necessidades de defesa de um país que continua sob ataque.
Zelensky exige mais defesa aérea para aceitar uma nova suspensão
Apesar do confronto verbal, Zelensky não descartou completamente uma nova interrupção dos ataques contra instalações energéticas. Ele afirmou, contudo, que uma eventual suspensão dependeria de contrapartidas concretas.
Entre as condições mencionadas está o fornecimento de mais interceptadores Patriot, munições utilizadas pelos sistemas americanos de defesa aérea para tentar destruir mísseis e outras ameaças em voo.
O Patriot é particularmente importante para a Ucrânia por sua capacidade de enfrentar determinadas ameaças aéreas de alto valor. O sistema, entretanto, não oferece proteção absoluta: sua eficácia depende do tipo de ameaça, da disponibilidade de interceptadores, da cobertura territorial e das condições de cada ataque.
Ao vincular a suspensão das ofensivas à obtenção de mais munições de defesa aérea, Zelensky procura transformar a pressão americana em uma negociação sobre as necessidades militares ucranianas.
A mensagem é direta: Kiev não pretende aceitar uma restrição que considere unilateral enquanto continuar enfrentando bombardeios russos.
O que essa crise significa para o futuro da guerra?
O principal risco é que a disputa entre Washington e Kiev enfraqueça a coordenação entre os países ocidentais justamente quando a Ucrânia continua dependendo de equipamentos, inteligência e apoio militar estrangeiros.
A Europa pode ampliar sua assistência, mas substituir rapidamente todas as capacidades americanas não é uma tarefa simples. Sistemas de defesa aérea, informações sobre lançamentos de mísseis e redes de comunicação militar exigem recursos, infraestrutura e integração técnica que não podem ser reproduzidos da noite para o dia.
Para o presidente russo, Vladimir Putin, um afastamento entre os Estados Unidos e a Ucrânia pode representar uma oportunidade diplomática. Quanto maior a dificuldade de Kiev para obter apoio externo, maior poderá ser a pressão sobre o governo ucraniano nas negociações e no campo de batalha.
Isso não significa, contudo, que o rompimento entre Trump e Zelensky seja inevitável ou que a Rússia já tenha obtido uma vitória estratégica. A evolução da crise dependerá das decisões de Washington, da capacidade europeia de sustentar a Ucrânia e da disposição de Moscou para aceitar compromissos concretos.
O que já está claro é que a trégua energética não conseguiu impedir a retomada dos ataques e que a disputa entre os dois presidentes deixou de ser apenas uma questão de retórica. Agora, ela envolve diretamente a estratégia militar ucraniana, a segurança energética e o futuro da cooperação entre os Estados Unidos e um de seus principais parceiros na guerra contra a Rússia.