As últimas forças militares dos Estados Unidos estão deixando o Iraque, encerrando uma presença que começou com a invasão de 2003 e atravessou mais de duas décadas de guerras, ocupação, combate ao terrorismo e disputas de influência no Oriente Médio.
A retirada deve ser concluída até 30 de setembro e ocorre em um momento particularmente sensível: os Estados Unidos estão em conflito com o Irã, enquanto grupos armados ligados a Teerã possuem forte influência dentro do território iraquiano.
Será um novo Afeganistão?
Em 20021, os Estados Unidos encerram uma presença militar que durou muitos anos no Afeganistão e transferiram para as forças locais a responsabilidade pela segurança do país.
O principal risco, agora, está na possibilidade de surgir um vácuo de poder que seja aproveitado por grupos armados ou organizações extremistas no Iraque.
No entanto, existe uma diferença importante. O Iraque de 2026 não é o Afeganistão de 2021. O país possui forças armadas próprias, instituições políticas estabelecidas e uma estrutura de segurança que foi construída e treinada durante anos.
Além disso, o Estado Islâmico e milícias islâmicas não controlam atualmente grandes áreas do território iraquiano como o Talibã controlava partes significativas do Afeganistão antes da retirada americana. Portanto, não existe, neste momento, uma indicação de que esteja ocorrendo uma repetição direta do cenário que levou à queda de Cabul.
Porém, o Irã tem a ganhar estrategicamente com a saída da coalizão, pois isso elimina uma presença militar que, durante anos, serviu de contrapeso à influência de Teerã no Iraque.
De acordo com especialistas no assunto, os grupos de milícias islâmicas xiitas pró-Irã não só retratariam a saída como uma vitória para o seu movimento, mas também “procurariam traduzir esse ímpeto em maior influência sobre a segurança e a tomada de decisões políticas”.
Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, um grupo que engloba facções armadas apoiadas pelo Irã, descreveu a retirada dos EUA como “uma vitória histórica para os grupos de resistência islâmica iraquianos e para os iraquianos honrados, e uma derrota esmagadora para o projeto americano”.
A saída representa uma mudança importante no equilíbrio de poder dentro do Iraque. Para o Irã e suas milícias aliadas, a retirada americana é apresentada como uma vitória.
Para setores da sociedade e das forças de segurança iraquianas, porém, existe o temor de que a ausência dos Estados Unidos reduza a capacidade de conter grupos armados e facilite uma eventual reorganização do Estado Islâmico.
Uma presença militar que começou em 2003
A história começou em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque para derrubar o governo de Saddam Hussein. A operação transformou completamente o país e deu início a anos de ocupação e combate contra grupos insurgentes.
As forças americanas deixaram o Iraque no final de 2011, mas retornaram menos de três anos depois. O motivo foi o avanço do Estado Islâmico, que havia conquistado grandes áreas do território iraquiano e sírio.
A partir de 2014, a missão americana passou a concentrar-se principalmente no apoio às forças iraquianas na luta contra o grupo extremista. O Estado Islâmico perdeu seu território e seu chamado califado foi derrotado militarmente, embora células clandestinas tenham permanecido ativas.
Durante esse período, cerca de 4.500 militares americanos morreram em operações relacionadas à guerra do Iraque ao longo de mais de duas décadas.
As forças de segurança que defenderão o Iraque
O sistema de segurança do Iraque é bastante fragmentado e reúne forças regulares do Estado, unidades de contraterrorismo, polícia, forças curdas e também grupos de mobilização tribal e milícias incorporadas formalmente à estrutura estatal.
Em termos simples, é possível imaginar o aparato de segurança iraquiano como várias camadas.
A principal é o Exército Iraquiano, subordinado ao Ministério da Defesa. É a força militar convencional responsável pela defesa do território e por operações contra grupos armados. Dentro dessa estrutura estão as forças terrestres, além de componentes como Força Aérea, aviação do Exército, Marinha e defesa aérea. O Exército é, portanto, uma instituição estatal regular, e não uma força tribal.
Depois existe o Ministério do Interior, que controla uma grande estrutura policial e paramilitar. Ela inclui a Polícia Federal, polícia provincial, forças de proteção de fronteiras, unidades de resposta a emergências e outras forças especializadas. A Polícia Federal, em particular, acabou adquirindo características bastante militarizadas depois dos anos de combate contra o Estado Islâmico.
Existe também o Serviço de Contraterrorismo do Iraque, conhecido como CTS. Essa é uma das forças mais importantes para operações especiais e combate ao terrorismo. Diferentemente do Exército e da Polícia Federal, o CTS responde diretamente ao primeiro-ministro iraquiano. Ele inclui unidades de operações especiais e foi criado justamente para enfrentar ameaças como a Al-Qaeda e, posteriormente, o Estado Islâmico.
E aí chegamos à parte mais complicada: as Forças de Mobilização Popular, conhecidas como PMF ou Hashd al-Shaabi. Elas foram criadas em 2014, quando o Estado Islâmico conquistou grandes áreas do Iraque. Depois da ofensiva do grupo contra Mosul e outras cidades, uma convocação religiosa do aiatolá Ali al-Sistani ajudou a mobilizar milhares de combatentes para enfrentar o Estado Islâmico.
Em 2016, o Parlamento iraquiano transformou a estrutura em uma formação militar oficialmente integrante das Forças Armadas e subordinada, em termos legais, ao comandante-em-chefe, o primeiro-ministro.
Mas aqui está a grande peculiaridade: as PMF não são um exército homogêneo. Elas funcionam como uma espécie de guarda-chuva que reúne dezenas de organizações armadas diferentes. A maioria é formada por árabes xiitas, mas também existem unidades sunitas, yazidis, cristãs e de outras minorias. Algumas dessas organizações possuem relações políticas próprias e algumas facções mantêm vínculos muito próximos com o Irã.
As Forças de Mobilização Tribal, ou Tribal Mobilisation/Hashd al-Asha’iri. Essas são diferentes das PMF xiitas tradicionais. Elas são compostas principalmente por combatentes de tribos árabes sunitas, especialmente em regiões que foram ocupadas pelo Estado Islâmico. Sua função historicamente foi combater o Estado Islâmico e depois ajudar a proteger as áreas reconquistadas.
O efeito Estado Islâmico x Fragilidade de segurança do Afeganistão em 2021
Depois do avanço do Estado Islâmico em 2014, o governo iraquiano precisava de uma estrutura capaz de mobilizar rapidamente milhares de combatentes. Surgiram ou foram ampliadas diversas forças de mobilização, incluindo grupos tribais e milícias.
Posteriormente, as Forças de Mobilização Popular (PMF/Hashd al-Shaabi) foram reconhecidas legalmente como parte das forças de segurança do Estado e colocadas formalmente sob autoridade do primeiro-ministro.
A diferença para o Afeganistão é significativa. O que ocorreu foi uma incorporação parcial e institucionalização de várias forças dentro do aparato estatal iraquiano, mantendo estruturas e cadeias de comando próprias em alguns casos.
Isso criou uma situação bastante peculiar: um combatente pode pertencer a uma organização que nasceu como milícia ou força local, mas estar oficialmente enquadrado dentro da estrutura de segurança do Estado iraquiano.
Isso é muito diferente do que ocorreu no Afeganistão. Ali, durante a retirada americana de 2021, o governo dependia principalmente das Forças de Segurança e Defesa Nacionais Afegãs (ANDSF), Exército, Força Aérea, polícia e unidades especiais. Quando o apoio americano desapareceu, essas estruturas começaram a entrar em colapso rapidamente em várias regiões, enquanto o Talibã avançava.
No Iraque, portanto, existe uma espécie de “redundância” de segurança. Se uma estrutura enfraquece, existem outras: Exército, contraterrorismo, polícia, PMF, forças tribais e Peshmerga. Isso não elimina os riscos de fragmentação, mas torna o sistema muito mais complexo do que o modelo afegão de 2021.